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Quiosque da Joana

03.05.18

os meus feijões mágicos

Joana Marques

A minha avó Maria contava-me histórias.

Desde que me lembro.

À noite. Na cozinha.

Depois do jantar.

Não havia televisão. Para ninguém.

Ficávamos a conversar todos.

Nunca me cansava de as ouvir.

E pedia todas as noites. Para ela me contar. Uma e outra vez.

A minha avó. Nunca contava as histórias como elas eram.

Quem conta um conto acrescenta um ponto.

E a minha avó acrescentava. Mudava. E recontava a história.

Provavelmente por não saber mesmo a história como deve ser.

E por isso recriava-a como se lembrava...

 

Era uma vez um menino chamado João. 

Vivia no campo com a mãe.

Tinham como único sustento o que tiravam da terra e uma vaca.

Um dia a mãe ficou doente.

E não conseguia trabalhar.

Não tinham dinheiro para comprar medicamentos.

A mãe pediu ao João para ir à feira e vender a vaca.

E o João assim fez.

No caminho encontrou um velhote. Que lhe propôs o negócio seguinte.

Dás-me a vaca. E em troca dou-te estes feijões mágicos.

O João aceitou. Melhor que dinheiro são feijões mágicos.

Toda a gente sabe disso!

Quando o João chegou a casa. Contou à mãe.

Mostrou orgulhoso os feijões. Mágicos.

A mãe. Não queria acreditar.

Não tinham vaca. Não tinham dinheiro para comprar os medicamentos.

Tinham perdido tudo.

Em desespero e zangada. Atirou com os feijões janela fora.

No dia seguinte. João acordou. E os feijões tinham germinado.

O feijoeiro chegava ao infinito.

João subiu feijoeiro acima e só parou no céu.

E o céu. É o céu.

Só tem coisas boas.

 

- Ah! A mãe diz que o tio Luís está no céu..ele também tinha feijões mágicos?

- Não, Joana. O tio Luís estava muito velhinho e morreu.

- Mas morrer é mau...temos de morrer para ter feijões mágicos.

- Não. Claro que não. Só tens de os encontrar. E tomar conta deles...

- A avó já os encontrou??

- Já.

- Já!? Onde é que eles estavam?

- Alguns com a minha mãe, outros com o meu pai. Com o teu avô. Com o teu pai e com os teus tios. Com vocês.

- Eu nunca te dei nenhum feijão mágico.

- Deste, Joana, deste. Tu é que não percebeste. Os feijões mágicos andam disfarçados. Nós temos de estar atentos. Não os perder. E para isso temos de cuidar muito bem deles.

- E não me podes devolver os feijões mágicos que te dei?

- A seu tempo vais encontrar mais. Não te preocupes com isso.

 

Fiquei destroçada. Eu já tinha tido feijões mágicos. E sem querer dei-os.

Nesse dia. A conversa sobre os feijões mágicos ficou por ali.

Mas no dia seguinte acordei....

...e virei a casa do avesso.

Gaveta por gaveta.

Armário por armário.

Quarto por quarto.

Cozinha.

Casas de banho.

Palheiro.

Capoeira das galinhas.

Barracão das ferramentas.

Forno.

Casinha do gás.

E sabem que mais. Nada. De nada.

Onde é que raio andavam os feijões mágicos.

Ali não estavam. Fiquei com a certeza que ali não estavam.

Deviam estar no banco. Pensei eu.

 

E a vida seguiu o seu rumo.....

 

30 anos depois.

Ontem.

O Pedro deixou a Alice em casa dos meus pais pelas 7h.

Eu. Aproveitei e comecei a trabalhar logo que saíram de casa.

Almocei pelas 13h.

E depois de almoço achei que podia ficar durante a tarde com a Alice.

Tinha de responder a uns emails de trabalho mas podia aproveitar a hora da sesta.

Trouxe a miúda para casa.

A Alice reencontrou o Vasco. O Vasco reencontrou a Alice.

Caos instalado.

Mais. A Alice reencontrou os brinquedos que recebeu pelos anos. E que adora.

Um carrinho de bonecas. E uma cozinha.

E com tamanha diversão. A passar-lhe pelos olhos. A Alice dormiu tanto como eu.....

Estava a cair de sono.

Estava completamente imprópria. Mas debatia-se contra o sono.

Não conseguia brincar de tão cansada. Mas não queria dormir.

Estava resmungona. Chorosa. Ranhosa. E intragável.

- Não durmo. Não durmo. E não durmo.

Como não dormiu. Não comeu.

É o chamado círculo vicioso.

Ou efeito dominó.

Basta falhar aqui qualquer coisa. Tudo se desmorona.

Quando o Pedro chegou.

Não tinha respondido aos emails

Não tinha passeado o Vasco.

Não tinha feito nada de nada.

É a vida. Muitos dias estão para vir assim...e já se sabe. É um erro tremendo, morrer de véspera.

 

O Pedro foi passear o Vasco.

Eu fiquei com a Alice.

E quando voltou. Disse-me para tratar dos emails que ele ficava com os dois.

 

Custa-me tanto trabalhar quando estamos todos em casa.

Tão triste. Não poder estar com eles.

Lá fui. A arrastar-me até ao escritório.

Tinha 33 emails de trabalho para responder.

Decidi responder a 17 e depois dar um prémio a mim própria.

E o prémio era:

- poder sair do escritório. Ir espreitar os 3. E depois voltar e responder aos restantes.

Fiquei mais animada. Depois deste negócio que fiz comigo própria.

Respondi a um. Dois. Três. ......Dezassete.

 

E lá fui. Devagarinho.

Sem fazer barulho.

Lá fui eu espreitar.

E vi o Pedro. Com a Alice ao colo.

Segurava-a com o braço direito.

Estava com um livro. A ler-lhe uma história.

A Alice estava atenta.

Mas ia acrescentando sempre alguma coisa à história.

Provavelmente com razão, nunca o saberemos.

Tinha um bocado de banana na mão. Que ia comendo devagar. As mãos cheias de banana.

Toda ela era banana.

Cabelo.

Pernas.

Cara.

O próprio Pedro. Tinha banana no cabelo. E no queixo. Porque a Alice tem o hábito de nos querer fazer festinhas.

Do lado esquerdo do Pedro.

Estava o Vasco.

Ora olhava para o Pedro. Ora olhava para a Alice.

Depois percebi. Que olhava era para a banana. Segui-a com os olhos. Um cão não é de ferro.

E quando não há frango assado. Banana pode ser uma alternativa.

 

Os três na sala.

E eu. Escondida.

A olhar. Para eles.

 

 

Ali estavam eles.

Finalmente....

.......os meus feijões mágicos.

 

 

01.05.18

quem parte e reparte. Fica com a melhor parte!

Joana Marques

Parte: 1

O Pedro foi trabalhar hoje.

Começava às 8 da manhã mas saiu de casa às 6h30 porque queria adiantar trabalho no hospital.

Fiquei com a Alice e com o Vasco.

Aproveitei que a Alice ainda dormia e o Vasco não me convidou para passear. Para começar a adiantar trabalho.

Antes de começar. 20 minutos de Yoga. Começar assim o dia, é sempre melhor.

Mudei a roupa da cama.

Fiz uma máquina de roupa. E logo a seguir mais duas. Estendi a roupa.

Limpei a casa. De forma silenciosa. Nesta fase não usei aspirador. Deixei para depois.

Comecei a cozinhar.

A Alice acordou. Tudo o que estava a fazer ficou de parte.

Pediu para ir para o chão. E andou à procura do Pedro na casa inteira.

Mudei-lhe a fralda.

Dei-lhe o pequeno almoço.

O meu pai chegou. Tinha combinado com ele. E levou-a lá para casa.

O Vasco também quis ir.

Mudei a roupa da cama dela. E limpei-lhe o quarto.

Aspirei a casa. E retornei à cozinha.

Fiz canja.

Fiz sopa para mim e para o Pedro. Deve dar até sábado.

Fiz sopas para a Alice.

Fiz pão. Para toda a semana.

E deixei prontas. 5 refeições para duas pessoas.

O Pedro almoça no hospital a maioria das vezes. Por isso, fiz sobretudo jantares.

Fiz uma tarte de maçã. Para termos alguma coisa diferente.

Fui às compras. E arrumei tudo.

 

Parte: 2

Comecei a limpar e a arrumar a casa de Carcavelos.

Uma parte da roupa de inverno já está lavada. E pronta a ser arrumada. Em Carcavelos.

A segunda parte do meu dia foi exatamente ir a Carcavelos começar a organizar tudo.

O Pedro também já começou a fazer a mudança.

Vai dar uma trabalheira descomunal. Mas vai valer a pena.

Hoje o dia foi dedicado a limpar como deve ser o meu quarto.

Comecei a fazer a mudança do meu quarto antigo que é no andar de cima, cá para baixo.

Dei por encerrado o meu dia em Carcavelos.

Passei pelo Estoril para ir buscar a Alice.

A Alice adormeceu. E eu aproveitei para passar a ferro e arrumar a roupa que lavei de manhã.

 

Parte:3

 

A melhor parte do dia. Ainda está para acontecer.

Nas duas primeiras partes do dia. Fiz muita coisa. E adiantei uma boa parte da semana.

O Pedro está quase a chegar.

E por isso. Posso dar-me ao luxo de ficar só a contemplar. Os 3.

E a saborear a tarte de maçã.

4 (6) - Cópia - Cópia.JPG

Quem parte e reparte.

Fica com a melhor parte!

Daqui a pouco vamos estar todos juntos.

É essa a melhor parte!

 

 

26.04.18

yesterday

Joana Marques

Ontem, foi um dia de emoções fortes.

Eu. Que habitualmente sou de lágrima fácil. Chorei o dia todo.

Quem me conhece não estranha.

Quem me conhece menos bem. Daqui a uns meses vai achar normal...

 

Chorei quando a Alice acordou e lhe dei os parabéns.

O Pedro também lhe deu os parabéns. E eu, chorei claro!

Depois de todas as rotinas matinais.

Vesti-a com um vestido branco que já tinha sido meu.

A diferença é que eu usei-o quando tinha 18 meses e a Alice tem 12.

Tentámos tirar-lhe fotografias. Não foi fácil. Temos umas 3 de jeito.

Tirei-lhe o vestido. Só o voltou a vestir para a festa.

E quando a estava a trocar. O Pedro apareceu para dizer qualquer coisa.

Saiu logo de seguida. Como não falou com ela. Ela disse:

- Olá...

Para o chamar.

Logo...num dia destes. A miúda diz a segunda palavra. Não sou de ferro...

 

 

O Pedro pegou na Alice e no Vasco. Foi dar uma volta com os dois. Para eu organizar o almoço.

Voltou. E logo de seguida chegaram os meus pais e os dele.

Os pais do Pedro ofereceram à Alice um urso gigante. Para não ser rejeitado por ela, a mãe do Pedro fez um laço rosa em tamanho xxl e coseu-a à orelha do urso.

O Vasco atirou-se ao urso e comeu-lhe o laço.

A Alice adorou o boneco.

Adora estar ao colo dele. Mais um concorrente para mim...

 

Almoçámos. Conversámos.

A minha mãe e a mãe do Pedro são praticamente as melhores amigas.

O meu pai, o Pedro e o pai do Pedro, também se entendem bem.

A Alice adormeceu.

Comecei a preparar o lanche.

 

Quando vi o bolo de super mulher no meio da mesa. Emocionei-me.

Ficava ali mesmo bem. Era mesmo aquele bolo.

As cores do bolo. Faziam um contraste muito giro com o resto.

Os convidados começaram a chegar. Eram mais de 50.

A Alice já tinha acordado. E passou-se com tanta prenda.

Eu também. Mas por razões diferentes.

Andou de colo em colo. E foi mimada até à medula.

O Vasco não andou de colo em colo mas andou de prato em prato.

Desapareceu, um salame de chocolate. De uma mesa de apoio.

Eu não sou de intrigas mas parece-me que é capaz de ter sido ele.

O cocó de hoje....

Com mil Slimanis...eram um mau cheiro do tamanho da Ásia...

 

 

Chorei quando se cantou os parabéns.

A Alice ainda não percebeu, claro!

Mas os olhos dela brilhavam por ver o ponto brilhante da vela no bolo de super mulher.

Fui eu que apaguei a vela. E ela atirou uma gargalhada quando a luzinha desapareceu.

Tão bom, vê-la a descobrir a vida...

 

Chorei. Chorei. E chorei.

Porque estava feliz.

Porque correu tudo bem.

Porque a Alice estava radiante.

Emocionei-me E emociono-me.

Porque percebo que ela foi muito bem aceite pela minha família e pelos meus amigos.

Pelos quiosquianos. Obrigada!

E recentemente, pelo Pedro e pelos pais do Pedro.

Emocionei-me. E emociono-me.

Porque estou rodeada de boas pessoas. Generosas. E de coração grande.

É muito mais fácil a nossa vida e a dos outros quando existe esta abertura por parte de todos.

A vida sem entraves parvos é muito mais leve.

 

No fim do dia. Quando toda a gente se foi embora.

O Pedro. Deu-me um copo com água e disse.

- Bebe. Os teus rins devem estar em sofrimento.

 

Imaginei os meus rins. Os dois.

Coitadinhos.

Desidratados.

E de boca seca.

Em pleno deserto do Saara.

Percorrendo o seu caminho em esforço.

Sem poderem chorar....porque os olhos levaram tudo. E tudo os olhos levaram...

Tive de chorar...

...a rir....

 

 

19.04.18

e assim começou mais um dia....

Joana Marques

A Alice adapta-se muito bem a novas situações.

É verdade que teve um início de vida difícil.

Penso que esta facilidade de adaptação, não terá só a ver com isso. Faz parte de ser criança.

Mas, independentemente de tudo. Conhece bem os que lhe são próximos.

É uma bebé muito simpática. Desde que esteja ao colo da mãe, da avó, avô, padrinho, etc.

Ou então que nos consiga ver.

Se os olhos dela não nos alcançarem. Puxa pelos pulmões.

E....

...põe um concerto de uma banda de metal no bolso.

 

 

Quando conheci o Pedro estava com a Alice.

Nas vezes seguintes não. Mas falámos sempre nela.

Avançar para um relacionamento inconsequente não fazia parte dos meus planos. Nunca fez. Nem antes da Alice.

Neste momento menos sentido fazia.

Falei com o Pedro sobre isso.

E quando resolvemos avançar. O Pedro disse-me que a Alice deixava de ser "minha" passava a ser "nossa".

Eu sou mãe de primeira viagem.

O Pedro é pai de primeira viagem.

Eu tenho alguma experiência em sobrinhos.

O Pedro nem isso. É filho único.

 

Estamos os dois a aprender.

Eu já levo algum avanço.

O Pedro chegou mais tarde. Mas...pouco importa.

A Alice estranhou o Pedro.

O Pedro não se intimidou com isso.

Deu-lhe tempo. Para se habituar à presença.

Deu-lhe colo.

Deu-lhe atenção.

 

Hoje de manhã, a Alice acordou. Com um sorriso enorme.

O Vasco estava comigo.

Tirei-a da cama e coloquei-a no chão.

Um ritual de todos os dias. Fazer uma festa ao cão.

Continuou a andar. Caiu. 

A gatinhar. Corredor fora.

Sempre a falar em alicês....

Foi ter com o Pedro ao quarto.

Um sorriso. Aberto. De um lado e do outro.

O Pedro pegou-lhe ao colo...

..... e assim começou mais um dia...

 

15.04.18

a vida. E o seu avesso..

Joana Marques

Um domingo perfeito.

E à noite.

A vida virou-se. Pelo avesso.

Todas as certezas desaparecem. Todos os planos.

Nos dias que se seguiram. Todos os caminhos indicavam o mesmo.

 

- Marca uma consulta com o Doutor Pedro.

- É o melhor mas não é muito simpático.

- Vai com calma e tem paciência. É um bocado frio. Mas é um bom médico.

- Se a Alice tiver alguma coisa de certeza que encontra. E vai-te orientar.

 

Foi pela pior das razões que o conheci.

Logo que entrei no consultório e olhei para a pessoa à minha frente senti qualquer coisa.

Não me foi de todo indiferente. Mas longe de pensar que podia dar no que deu.

Saí de lá aliviada. Pela Alice.

E achei que era só isto.

Quantas vezes na vida conhecemos pessoas que gostamos e que nunca mais vemos.

Tive sorte.

Também não lhe fui indiferente. Ao contrário de mim não se acobardou. E ligou-me.

Só aceitei almoçar com ele porque não me tinha sido indiferente.

Porque confiei. É mais fácil para a humanidade dar passos na lua do que eu confiar. Amorosamente, falando.

Pode parecer que não.

No fundo, no fundo sou um bicho do mato. É muito raro aceitar convites.

Mesmo simpatizando com a pessoa ou gostando, se pairar alguma coisa menos clara...não aceito.

Não sei o que aconteceu aqui. Não consigo explicar.

Desde o primeiro momento, confiei.

 

Os rumores de que iria ter à minha frente um homem de cara fechada. Antipático. E frio. Não se confirmaram.

A melhor palavra. É dizer que foi familiar.

É difícil de descrever em palavras. Porque vai muito para além disso.

Todos os meus receios se foram.

O meu medo de compromisso. Morreu.

 

E de repente. 

A vida virou-se. Mostrou-me o avesso.

O avesso.  Não era o avesso.

Afinal.

Era o lado certo.

 

Faz hoje um mês que conheci o lado certo da vida.

 

 

14.04.18

este ano o Natal. Vai ser em minha casa..

Joana Marques

No domingo passado fui almoçar a casa dos pais do Pedro.

Eu, o Pedro e a Alice.

Dei o almoço à Alice em casa. Almoça cedo e não queria que chegasse choramingas e com fome.

Chegou a dormir.

O almoço dá sempre moleza. E a miúda não bebe café.

A mãe do Pedro disse-me para a deitar na cama deles. E ela lá ficou.

Almoçámos.

Conversámos.

A Alice acordou. De bom humor.

Deram-lhe uma Minnie. Vestida de cor de rosa.

Conheci os tios do Pedro que moram perto.

A Alice andou de colo em colo.

Disse adeus.

Atirou beijinhos. E distribuiu sorrisos.

Sempre sem tirar os olhos de mim.

 

 

Pedi para ver o álbum de fotografias do Pedro.

Como é filho único. Tem um álbum maravilhoso. Completo. E bem arranjadinho.

Eu sou a terceira filha.

O meu álbum tem o meu nome escrito na capa porque quando tinha 8 ou 9 anos perguntei aos meus pais porque é que no álbum da minha irmã estava escrito, Sofia, no do meu irmão, Tiago. E no meu. Nada de nada.

Fui eu que escrevi. Joana. No meu próprio álbum.

Lá dentro. Tem umas fotos. Sem ordem. E meias soltas.

Se alguém assaltar a casa dos meus pais. Vai achar que o casal tem dois filhos. Mais uma.

 

 

Almoçámos em casa dos pais dele. Jantámos na casa dos meus pais.

Já que eu conhecia os pais dele. Não fazia sentido não conhecer os meus.

E torna a tarefa entre nós mais fácil.

Nos dias em que entra às 8h. É ele que deixa a Alice em casa dos meus pais.

Um dos dias a que a deixou. A minha mãe disse-lhe para falar com os pais dele. Queria conhece-los.

Ficou marcado para hoje. Um almoço.

A minha mãe avisou-me. Milhões de vezes.

- Joana. Porta-te bem!

- Joana. Não fales muito depressa.

- Joana. Não cortes a palavra quando as pessoas estão a falar.

- Joana. Isto.

- Joana. Aquilo.

Senhoras. E senhores. Apresento-vos a minha mãe.

 

Correu bem o almoço. Tão bem. Tão bem.

Que o Pedro entrou em casa dos meus pais, Sportinguista.

Saiu de casa dos meus pais, Sportinguista. E sócio do Sporting.

Já se combinou um almoço em casa dos pais do Pedro. Com os meus pais.

E outro no Alentejo.

Eu vou conhecer toda a familia do Pedro. Toda!

Daqui a uns dias no casamento do primo do Pedro. Recebi hoje o convite.

 

Sendo assim...

...tendo em conta que está tudo a andar sobre rodas!

Este ano o Natal.

Vai ser em minha casa.

 

 

12.04.18

a gata. Calada que nem um rato!

Joana Marques

O Pedro fez noite e manhã. No hospital.

16 horas seguidas de trabalho.

 

Eu ia passar o dia fora. Tinha umas questões a tratar no Alentejo.

Deixei a Alice com os meus pais.

E fiz-me à estrada.

O Pedro ligou-me a meio da manhã.

A dizer que estava muito cansado. Mal terminasse ia para casa dormir.

Nem que fosse uma hora. Precisava mesmo. Muito mesmo.

Ainda sugeri que ficasse em Lisboa, em casa dele.

A minha casa, como vocês já deram conta, pode ser muito caótica.

O cão. Pode muito bem dar o ar de sua graça a qualquer momento.

O Pedro disse que não. Que ia para Cascais.

 

A relação entre o Pedro e o Vasco. Não existe.

O Vasco faz de conta que ele não existe.

Quando estou com o Pedro no sofá. O Vasco faz questão de se pôr entre nós os dois.

Normalmente a olhar para mim. Com olhos amorosos. E a dar com o rabo na cara do Pedro.

Se eu estiver sentada e quiser falar com o Pedro.

O Vasco está à frente. E eu nem o vejo.

Tenho de andar a desviar-me para poder comunicar. E o Pedro a mesma coisa.

Parecemos dois tontos. Até que um de nós desiste e senta-se na mesa de apoio em frente ao sofá.

Fica de costas viradas para a televisão.

E o Vasco sai do sofá e salta para o meu colo.

 

Aceita festas do Pedro. Sem grande fogo de artificio.

Acorda-me de manhã. Ignora o Pedro.

Se vamos passear. O Vasco claro. Tem de ir no meio de nós.

Mas...

....eu conheço este cão.

 

- Se ele precisar de ir à rua. Vai fazer um grande alarido. É melhor leva-lo porque não se vai calar. E não vais conseguir dormir.

- Está bem.

- Se o levares a passear. Só sais com ele com a trela posta. Olha que ele faz um ar de anjo mas só o apanhas na Serra de Sintra.

- Está descansada.

- Não deixes as chaves na porta. Ele rouba-as e esconde-as.

- Certo.

- Não deixes a varanda aberta mesmo que ele peça. Porque pode estar naqueles dias em que lhe apetece assustar as pessoas que passam na rua.

- Como assim?

- Finge-se de morto e quando elas passam, ladra ou uiva-lhes ao ouvido.

- Ah! Ah!

- Se estiveres na casa de banho. E quiseres privacidade total, fecha a porta à chave. Ele abre portas. E adora atirar com o cortinado da banheira cá para baixo.

- Eh! Eh!

- Também abre torneiras.

-

- Cuidado com o telemóvel. Já te avisei que ele adora pegar em telemóveis.

- Já sei.

- Se fores dormir e quiseres dormir como deve ser, não o feches em nenhuma assoalhada. Vai fazer uma barulheira que nem te passa pela cabeça. Deixa-o andar pela casa...o mais provável é adormecer no sofá.

- Ok!

- A última gaveta do frigorífico. A pequenina! É dele. Em casos extremos, aquece frango assado. Cuidado porque ele sabe abrir o micro-ondas. Vê bem se o micro-ondas está para trás para ele não lhe chegar.

- E essa gaveta só tem frango assado.

- Não. Mas tudo é que lá está é do Vasco. Também estão lá ossos grandes cozinhados, para quando preciso de umas boas horas de sossego.

- Ah!

- Os saquinhos para apanhar cocó estão dentro da caixa verde que está na bancada da cozinha.

- Eu sei.

- Pedro. Boa sorte!

- Ah! Ah! Vai correr bem...

 

O Pedro esteve o dia todo a dar consultas.

E por isso não o importunei com mensagens maçadores. Ainda o fazia perder mais tempo.

Não soube mais nada dele.

 

Cheguei do Alentejo.

Passei por casa dos meus pais. Para ir buscar a Alice.

Dei-lhe o lanche lá.

Adormeceu no carro.

Entrei em casa com a Alice ao colo.

Um silêncio. Sepulcral.

Deitei-a. E comecei à procura de gente viva nesta casa.

- Está cá alguém?

Nada....nem um ai.

A gata apareceu. Rondou-me as pernas. Fiz-lhe uma festa.

- Julieta viste alguém???

Entrei no quarto. E deparo-me com uma visão. Surreal.

O Pedro estava a dormir. Acompanhado.

Vasco encostadinho. Ao Pedro.

Pedro encostadinho. Ao Vasco.

PIOR!

O Pedro com o bracinho no Vasco.

Engoli em seco. E saí do quarto. Não quis estragar o clima romântico.

O amor está no ar.

 

Não sei que raio de orgia se passou aqui.

Mas....

.....uma coisa é certa.

O frango assado desapareceu. Todo!

 

A gata assistiu a tudo!

.....e está calada que nem um rato!

 

09.04.18

o Senhor Ludovino conheceu o Pedro

Joana Marques

Com todos os acontecimentos dos últimos tempos, já não ia a Carcavelos desde este dia.

O Senhor Ludovino. Andava doido.

Ligou-me.

- Já viste que está a chover? Como é que se mexe no telhado a chover??

- Calma. Temos de esperar. Nem que os senhores deixem por enquanto esse trabalho e voltem daqui a um mês.

- Era o que mais faltava. Ninguém sai daqui. Nem que lhes fure os pneus do carro.

 

Ligou-me outra vez.

- Já deste conta que está a chover???

- Pois, está. É assim..não se pode fazer nada. Temos de esperar...

- Como não?? E um oleado?? Não achas que podemos experimentar??

-

 

E outra.

 

- Joana. Está a chover.

- Está?

- Não vês que está a chover????

- Nem me apercebi disso....

- Joana....cai água por todo o lado. O teu terraço deve estar inundado.

- Penso que não...

- Ai tanta, chuva...tanta chuva....

- Pois....

- Não fazes nada??? Tu não fazes nada??

- Quer que eu ligue a São Pedro???

- Um oleado, tens de comprar um oleado....

 

E ainda outra.

- Joana?

- Sou eu.

- Está a chover.

- Eu sei.

- Quando é que vens cá. Para tirares medidas??

- Medidas??

- Do oleado...mulher!!

 

Passei por lá. Hoje.

O Pedro saía às 16h.

Fui buscar a Alice a casa dos meus pais.

E encontrei-me com ele em Carcavelos.

Deixámos os carros.

E passeámos na praia. Os 3.

O Vasco ficou a dormir na minha cama... disse que não ao convite de passeio que lhe fiz.

Estava frio. Mas sol. E até apetecia passear.

Mas para não se fazer tarde. E para o Pedro ter tempo de conhecer a minha casa, acabámos por nos fazer ao caminho.

Entrámos no prédio.

O senhor Ludovino mirou o Pedro de cima, abaixo. Várias vezes.

- Quem é?

- É o Pedro. O meu namorado.

 

 

Ui. Não devia ter dito. Assim de chofre.

Agarrou-me por um braço. O Pedro tinha a Alice ao colo.

- O teu pai já sabe?

- Sim.

- E deixa???

- Claaaaaro.

- E o Paulo??

- Qual Paulo?

- O Paulo dos roupeiros.

- Oh! Não. Ainda insiste nisso.

- Tenho de insistir. Tenho de insistir. Ó rapaz! Trabalhas???

- Sim. Sou médico.

- Médico??? Do coração???

- Não. Rins.

- Também serve. Se faz favor, Senhor Doutor, entregue a criança à mãe. Pode vir aqui a minha casa?? Joana podes ir andando lá para cima.....vai, vai...vai....

 

Fiquei com a Alice.

Disse ao Pedro para subir quando estivesse despachado.

Já a temer o pior.

 

Em resumo.

A Alice já adormeceu. E ainda não jantou.

Não sei nada do Pedro.

Duas horas. Senhores. Duas horas....que não sei nada do Pedro.

...o Sr Ludovino ficou com o meu Pedro.

 

E desconfio que a sua devolução vai ser complicada....

...se houver devolução...o mais certo é querer ficar com ele

....como eu o compreendo...

 

 

09.04.18

o melhor método contraceptivo

Joana Marques

De madrugada.

A dormir. Fisicamente em coma. Mas com o cérebro a funcionar.

Pensei.

E se desse um beijinho ao Pedro. Assim, sem ele dar conta. Só porque sim.

Viro-me.

Chego-me.

E...

- Yeak! Nunca tinha reparado que o Pedro tinha esta estrutura óssea. E o cheiro? Cheira mesmo ao......VASCO???

- Uuuuff!

 

O Pedro deve ter-se apercebido de alguma coisa e diz-me, meio a dormir.

- Joana...

- Não sou eu. Do teu lado esquerdo está a mesinha de cabeceira. Do teu lado direito está o Vasco.

- Aos meus pés...

Estico o braço. Por cima do Vasco. Para lhe dar a mão.

- Pedro, dorme. Aos teus pés deve ser a gata.

.

.

.

.

.

.

.

- Miaaaaaaaaaau.

Risos. Às quatro da manhã.

07.04.18

como um puzzle..

Joana Marques

Ontem. Sexta-feira.

O Pedro saiu aqui de casa às 7h da manhã para garantir que às 8h estava no hospital.

Chegou às 7h30.

Fez-me prometer que ia almoçar com ele.

Não me dava jeito nenhum.

Tinha de trabalhar, claro. Mas queria aproveitar a pausa do almoço para ir às compras.

A minha despensa, já teve melhores dias.

Eu sei que sou eu que faço os meus horários mas se começar a baldar-me as coisas não se fazem sozinhas.

Trabalhar em casa exige muita disciplina. E rigor.

O homem tanto insistiu que acabei de dizer que sim.

Combinámos num restaurante perto do hospital.

Disse-me pelo menos umas 100 vezes para não me atrasar porque só conseguia ter no máximo dos máximos uma hora de almoço.

Disse.

- Sim senhor...vai lá descansadinho. Que eu chego a horas.

O homem lá foi.

 

Saí de casa cedo. Para garantir que chegava. Sem atrasos.

Depois da lasanha queimada.

De o homem ter virado gata borralheira.

Achei que era melhor não esticar muito a corda.

Chovia muito.

Cheguei meia hora mais cedo.

E lugar para estacionar??

Querias....

Andei às voltas. De um lado para o outro.

Continuava a chover.

20 minutos para a hora marcada.

Mais umas voltas.

Ainda pensei deixar no parque que costumo usar quando vou ao hospital mas a chover tanto não me apetecia chegar ensopada ao restaurante.

Continuei a circular. Mais uma voltinha.

Nada.

Outra voltinha.

Nada.

10 minutos.

Nada de lugares.

Apeteceu-me começar a chorar. Como se sabe. Se uma pessoa chora. Aparece logo, logo um lugar de estacionamento.

É imediato!

 

Faltavam uns 5 minutos. Quando vi um carro a sair.

Estava na rua das traseiras. Do restaurante.

Estacionei.

Chovia desalmadamente.

Fui pagar o estacionamento ao parquímetro.

E com estas brincadeiras todas. Estava em cima da hora.

Resolvi. Entrar pelas traseiras do restaurante. Ou ia atrasar-me....mesmo.

Bati à porta.

Abriu-me a porta um moço. Novo. Muito magricela. Mal me viu.

- Não queremos nada.

Eu. De chapéu de chuva na mão. Disse.

- Ouça o que tenho para dizer antes de me fechar a porta. Posso entrar por aqui???

- Não é permitido.

- Está uma pessoa dentro do restaurante. Que é nem mais nem menos que o homem da minha vida. Se eu tiver de ir dar a volta...vou ficar ainda mais ensopada. Vou chegar atrasada. E peço-lhe por tudo que me deixe entrar....por favor! Por favor!

O rapaz olhou para mim. Hesitou. Olhou outra vez.

- Por favor! Por favor!!

- Entre. Se lá dentro lhe perguntarem o que é que está aqui a fazer diga que quis ver a cozinha porque tem alergias. Sobretudo se for o nosso chef. O da jaleca escura.

- Esteja descansado.

Entrei. Passei por uma cozinha limpérrima. Com uma azáfama só vista. E vi um homem vestido de escuro. Achei que era o tal chef. Com medo que me fizesse ir à volta, atirei-lhe com..

- Estou aqui para ver a vossa cozinha. Sou alérgica a...........pistachios...

Podia ter dito amendoins. Amêndoas. Nozes. Lactose...mas não. Pistachios foi o que me veio à cabeça.

- Não é este. Não é este.

Disse-me o moço magrinho.

 

Saí da zona da cozinha, através de uma porta. E avistei o Pedro.

Não tirava os olhos da porta de entrada do restaurante. Nitidamente ansioso.

Peguei num bocado de miolo de pão. De uma mesa. Fiz uma bolinha. E atirei-lhe a bolinha de pão.

Caiu dentro do copo dele. O homem deu um pulo. E depois viu-me.

Com um ar meio desorientado.

- Mas......

- Entrei pela cozinha. É onde há comida.

 

Mal digo isto. Vejo que o Pedro não está sozinho. Ao lado dele está um senhor. E do lado oposto estava uma senhora.

Com idade para serem os pais do Pedro.

Com mil Fábios Coentrões devolvidos. Eram os pais do Pedro.

Quase enfartei.

Tanto ameaço. Um dia destes será. Vou enfartar à séria.

 

O almoço correu bem. O Pedro comeu à pressa para voltar ao trabalho.

Saiu quando chegou a hora dele.

Nós continuámos. À conversa. E a comer com calma.

Falei-lhes da Alice. E como é que chegou até mim.

Mostrei-lhes fotos da Alice.

Gostei muito deles.

Temos algo importante e em comum. Os três gostamos muito do Pedro. E isso será sempre algo que nos ligará.

 

 

No final. Pedi ao pai do Pedro se fazia favor de tirar o meu carro do estacionamento.

Estava ensanduichado entre dois carros e o prognóstico não era bom.

Amanhã vamos almoçar a casa deles.

A Alice também vai.

 

Como um puzzle.

Uma peça de cada vez. É assim, a vida...

 

Joana Marques

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