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Quiosque da Joana

12.03.18

a central L

Joana Marques

Depois do almoço passei pela minha casa. A verdadeira. A de Carcavelos.

Mal estacionei o carro. Apareceu o Sr. Ludovino.

Um rol de queixas. E de informações...

- Não fazem nada.

- Claro que fazem. Mesmo assim, até está a correr bem.

- Dizes tu porque é em tua casa, e no prédio?? Não tocaram no prédio!

- Não, porque tem chovido. É chato começarem a arranjar o telhado com o tempo chuvoso. Calma, tudo se arranja.

- Desculpas!! Nem tem chovido nada de jeito...

- Vou lá acima ver como estão as coisas...

 

O Senhor Ludovino foi comigo. Claro!

Entrei em casa. Disse boa tarde. Cumprimentei...aquelas formalidades.

Senhor Ludovino. Com o cotovelo chama por mim. E diz baixinho.

- Aquele que está ali tem uma mulher loura 20 anos mais nova que ele.

- Shiuuuuu. Fiz eu.

Olhei para o marido da loura. Pareceu-me demasiado novo para ter uma mulher 20 anos mais nova, mas...

 

Com o cotovelo.

- Aquele que ali está, vai todos os dias almoçar, ao Centro Comercial, come carne com minhocas (Mcdonald's). Já viste o ar dele? Não vai andar cá muito tempo....já deve ter apanhado o fígado...

- Shiuuuuuuuuuu. Não interessa. Não quero saber.

 

Dou mais uma volta. Mostram-me a casa de banho, quase pronta. E vem Sr. Ludovino.

Com o cotovelo.

Para logo a seguir, me puxar-me para fora da casa de banho.

- Estás a ver aquele de camisola deslavada, cor de tijolo??? É da tua idade, também já tem um filho, não queres conhece-lo melhor?

- Não!

- Olha que pode ser um bom partido. É trabalhador. Chega sempre a horas. Não fuma. Não bebe. E parece uma pessoa asseada.

- Shiuuuuuuuuuuu. Não!

Ficou com ar de: esta mulher não vê a sorte grande mesmo quando ela está dentro da própria casa...

Depressa voltou ao normal.

 

Apontou, para outro senhor.

- Aquele ali é do Norte, mas casou-se com uma Alentejana. Tem 3 filhos. Traz comida de casa. Almoço, lanche da manhã e lanche da tarde. Mas não é a mulher que lho faz, tem cá a mãe a viver com eles.

-

 

O encarregado da obra não estava.

Tinha ido beber um café.

Quando chegou eu estava a falar com um senhor que me estava a dizer o que será feito nos próximos dias.

- Só um momento. Diz o Senhor Ludovino.

E dá-me um beliscão no braço.

- Chega aqui. Chega aqui. Estás a ver aquele ali, é o encarregado. Manda nisto tudo,  mas é um desgraçado. Vê lá tu que só da parte do pai...tem mais de 20 irmãos.

 

Central L. Aberta 24 horas por dia.

Numa rua de Carcavelos. Mesmo ao lado da minha casa.

E eu. Ansiosa por voltar!

24.02.18

de olhos em bico

Joana Marques

As coisas por casa do Sr. Ludovino andam um pouco tristes.

O irmão da mulher morreu a semana passada.

O Sr. Ludovino sai de casa todos os dias. Dá o seu passeio. Compra o pão.

E vai sentenciar as obras na minha casa.

Muitas, muitas vezes ao dia.

- Joana, esta gente não faz nada. Estás mal. Nunca mais mudas de casa.

A mulher dele, tem problemas complicados nos joelhos e não se mexe muito.

Quase não sai de casa. Custa-lhe a andar.

Durante a semana foi complicado. Dar-lhes atenção.

Vim de Angola. Fiz anos. Tentei recuperar as rotinas. Tudo isso me roubou tempo. E disponibilidade.

Este sábado não escapou.

Convidei o Sr. Ludovino e a mulher para almoçar.

Normalmente, costumamos ir comer qualquer coisa à "Chaleira" que fica perto de nós.

Mas desta vez não os levei lá.

Entraram no carro.

E...

- Onde é que nos levas?

- Para onde é que vamos?

- Quando é que chegamos?

- Tens a certeza que é este o caminho?

- Não sei se quero ir...

- Tens a certeza que sabes o que estás a fazer??

 

A Alice, portou-se melhor que o Sr. Ludovino.

Lá chegámos.

Ao restaurante chinês.

Achei que deviam ter a experiência.

A ladainha começou antes de entrarmos.

- Isto não é bom.

- Vão nos dar minhocas.

- Deus me livre comer aí.

- Não como nada.

- Não gosto de nada.

Quando entrámos.

Indicaram-nos a mesa.

E eu escolhi os pratos. Tinha de ser algo soft.

Pedi, frango frito com amêndoas. E arroz branco.

- Este restaurante é tão bonito.

- Ai estes quadros. Tudo tão lindo.

- O empregado é tão simpático.

- Esta comida é tão boa.

- Acho que devíamos voltar cá para a semana.

- Hummm, está mesmo, mesmo bom.

Pedimos os cafés.

- Este café é excelente.

- Mesmo muito bom este café.

No fim. Apareceram com 3 toalhinhas.

- Nunca tinha visto isto em lado nenhum.

- Isto é um restaurante chinês chique.

- É o melhor restaurante das redondezas.

- Tenho que cá vir quando fizer anos.

Veio a conta. Acompanhada de 3 rebuçados.

- Que maravilha.

- Nunca fui tão bem tratado na vida.

- Dá mesmo vontade de voltar.

 

Era sábado. O restaurante estava cheio. Cheio.

E quando saímos.

O Sr. Ludovino diz. Muito alto.

- Ó Senhor chinês.

Para o empregado que nos tinha atendido.

- Senhor chinês. Estava tudo muito bom. Obrigado!

 

Todo o caminho de volta.

A gabar o chinês.

Já me ligou duas vezes. A dizer bem do restaurante.

- É por isso é que eles têm os olhos em bico! É de ver coisas boas!! Sábado temos de voltar lá....

E é isto a minha vida...

 

14.02.18

happy! Is the new rich...

Joana Marques

A engenheira ligou-me.

Para ir até Carcavelos. Queria que eu visse o chão de madeira, dos quartos.

Confirmar se era mesmo, mesmo o que eu queria.

- Não pode ser amanhã?

Não podia.

Tinha mesmo de ser hoje. Já. Imediatamente.

Logo hoje que estou com a Alice.

Ando a trabalhar aos bocadinhos. Comecei às 6h. Parei às 7h30.

Recomecei às 10h. E parei às 11h30.

Voltei a pegar no trabalho às 16h.

E agora a francesa.

- Já vou. Quando a Alice acordar, vou para aí.

Ainda lhe dei o lanche.

O que vale é que o cão tem colaborado. Com quase 4 anos. Pode ser que esteja mais maduro. Mais crescido.

O dia até está a correr bem.

 

Lá segui para Carcavelos.

Eu e a Alice.

Cheguei ao prédio.

Sr. Ludovino.

- Estás cá outra vez?

- Estou. Querem que eu vá ver o chão.

- Já vi. Está a ficar bom.

Senhor Ludovino, não pode subir escadas porque segundo ele, está muito velho para isso, mas não perde uma oportunidade de ir espreitar as obras. Dar opinião. E aconselhar a fazer as coisas de outra forma.

 

Deixei a Alice cá em baixo com a dona Helena, a mulher do Sr. Ludovino. E subi. Com ele.

Cumprimentei as pessoas que estavam em minha casa. Incluindo a engenheira.

Olhei para o chão.

- É mesmo isto. Está muito bom.

Mas....

....um cheiro. A tintas, ou qualquer coisa similar. Invadiu as minhas narinas.

Digo para a engenheira que terminamos a conversa cá fora.

Sempre com o Sr. Ludovino ao meu lado.

 

A engenheira dá ares de não perceber a minha pressa em sair dali. E eu digo:

- Je suis asmatique.

O Sr. Ludovino olha para mim com o ar mais incrédulo de sempre e diz.

- O que raio é que disseste à francesa??? És um asno rico??

 

O ar do Sr. Ludovino quando comecei a rir.

O ar da francesa quando comecei a rir.

O ar dos senhores, que estavam lá em casa, quando comecei a rir.

Foi impagável.

O rótulo de destrambelhada já ninguém me tira. E o de pateta alegre também não.

 

happy1.jpg

mais histórias do Sr. Ludovino aqui.

 

11.02.18

o poder de um espirro

Joana Marques

Passei o fim de semana na Sertã. Na casa que agora é da minha irmã.

O tempo ajudou. Ontem esteve um dia muito bom.

O Vasco correu que se fartou. E a Alice brincou cá fora.

Dormiu a sesta da tarde na rua e tudo. Ao nosso lado.

 

A minha irmã, o marido e a Inês ficaram lá. A aproveitar o fim de semana prolongado.

Mas eu não. Não podia.

Não me posso dar ao luxo de não trabalhar amanhã.

Estou com trabalho até ao pescoço.

 

Passei por Carcavelos.

Para deixar uma fatura.

Amanhã, vão entregar o chão dos quartos. E convém confirmar se vem mesmo aquilo que foi encomendado.

Já tive más experiências outras vezes.

 

Mal entrei no prédio.

Apareceu o Sr. Ludovino.

Muito combalido.

Muito queixoso.

-Nem sabes, acho que desloquei a bacia.

- A sério? Então? Caiu.

- Não. Espirrei...

 

Não me contive.

Comecei a rir. E não consegui parar.

- Faz pouco, Joana. Quando tiveres a minha idade vais ver como é.

Não consegui parar.

Continuei a rir.

Com a Alice ao colo. O Vasco ao lado.

Ria que nem uma perdida.

Fui a casa deixar a fatura. Sem conseguir parar de rir.

Fiz a viagem para casa, a rir.

E cada vez que me lembro do ar do Sr. Ludovino. Não consigo parar.

 

O pior.

Ri-me tanto. Sem parar. Por tanto tempo.

Acho que desloquei o maxilar. 

 

O efeito de um espirro. Anca e maxilar abatidos.

Imaginem, quando este homem se constipar...

  

 

mais histórias do Sr. Ludovino aqui.

 

10.02.18

se eu tivesse um aneurisma. Tinha rebentado. Ontem.

Joana Marques

Ontem, passei à tardinha por Carcavelos.

Tinha combinado com a engenheira. Decidir algumas coisas. Para começarmos a ver a luz ao fundo do túnel.

 

Entro no prédio.

E Sr. Ludovino aparece.

Em ponto de rebuçado.

- Nem sabes! A minha televisão avariou.

Sr. Ludovino é o maior consumidor de novelas que Portugal já viu.

Acho que a TVI e a SIC juntas trabalham diretamente só para ele.

Entro em casa dele.

 

Experimento o comando. Nada.

Verifico os cabos. Parecia tudo em ordem.

- Deve ter avariado mesmo.

Sr. Ludovino. Tão infeliz.

- Não fique assim, tem uma na varanda.

- Está muito frio na varanda.

Ainda me ofereci para mudar a televisão da varanda para a sala. mas não aceitou.

- Se quiser vamos os dois comprar uma televisão nova.

- O Miguel (o filho) trata disso.

 

A engenheira deve ter ouvido a minha voz e apareceu.

Pediu licença para entrar. E entrou na sala.

Nisto. Olho para a televisão e vejo que estão duas saquetas de cromos na parte da frente da televisão.

- É para os miúdos. (os netos)

Ao que parece um supermercado anda a oferecer cromos.

Tiro os cromos.

E com o comando. Ligo a televisão.

O Sr. Ludovino olha para mim como se eu fosse a santa protetora dos idosos sem televisão.

- Ah! Joana...

A dona Helena é apanhada de surpresa.

- Ó Helena! Os cromos naquele sitio não deixam o comando ligar a televisão. É como se o comando tivesse um preservativo. Percebes??? Um preservativo!!

 

A engenheira com um ar impávido e sereno.

A dona Helena sem perceber bem o que se tinha passado.

O Sr. Ludovino demasiado entusiasmado.

 

Ó Meu Deus.

Apoderou-se de mim uma vontade de rir.

Mas não podia.

Com esforço que fiz. As lágrimas escorriam pela cara abaixo.

- É das alergias. É das alergias.

 

Se eu tivesse um aneurisma. Tinha rebentado. Ontem.

 

mais histórias do Sr. Ludovino aqui.

07.02.18

a falar francês

Joana Marques

As obras em minha casa já começaram.

E eu tento acompanhar como posso.

Tento lá ir pelo menos dia sim, dia não.

A obra está a cargo da empresa do meu irmão.

Não é a especialidade deles mas eu fiz um choradinho tão grande que acabaram por aceitar.

 

A empresa do meu irmão tem dois sócios. Ele e um grande amigo, colega de faculdade.

Com a crise, o meu irmão e o sócio acabaram por emigrar para Angola.

Depois, ficou só o sócio e o meu irmão voltou.

Mas concorreu a uma obra na Noruega e emigrou outra vez.

Neste momento, o sócio continua em Angola. O meu irmão na Noruega e cá têm à frente da empresa uma engenheira.

Nasceu em França. Filha de pais portugueses.

Ainda pouco fala português.

 

Combinei com ela depois de almoço. Em Carcavelos. Em minha casa.

Quando cheguei.

Ouvi ao longe a voz do Sr. Ludovino.

- Ó diabo. Não me digas que está a ralhar com a engenheira...

Voei até à entrada do prédio.

- SERÁ QUE PODIAM...

- Boa tarde! O que é que se passa? Perguntei eu...

- Ela não percebe patavina do que eu digo...

- Eu sei, não sabe português...só fala francês...

- POR ISSO É QUE EU ESTOU A FALAR ASSIM....

Disse ele muito alto e a gesticular...para mim e para a engenheira...

- Para ver se ela percebe alguma coisa...por CAUSA DAQUELA TORNEIRA DA GARAGEM, PODIAM IR LÁ DAR UMA VISTA DE OLHOS..

- Sr. Ludovino, Sr Ludovino...francês não é falar português em voz alta...

- MAS EU ESTOU A ARTICULAR AS PALAVRAS TÃO BEM...

- Sim, mas a senhora não é surda...é só francesa...

 

E convencê-lo??

 

mais histórias do Sr. Ludovino aqui.

27.11.17

a visita do Sr. Ludovino...

Joana Marques

Estou em casa dos meus pais.

Ontem, quando cheguei, liguei ao Sr. Ludovino, a contar a minha desgraça.

 

Hoje, apareceu cá em casa. Para me ver.

Numa mão trazia uma violeta. Que é a minha flor preferida.

Na outra, um saco plástico do Pingo Doce.

Cheio.

Entregou-me o saco.

Quando abri o saco. Apeteceu-me cortar os pulsos.

Dentro dele. Papelada.

Tudo ao molho e fé em Deus.

Comecei a escavar. E comecei a encontrar.

Tudo e qualquer papel referente à administração do prédio.

No meio de extratos bancários. Contas da água. Da luz. E outra correspondência mais ou menos importante.

Estava isto:

umar.jpg

Chorei a rir.

Só este homem e o seu timming...

 

Já agora, Umar, grande médium curandeiro....se me estás a ouvir...

...era o Sporting campeão.

...envia a conta aqui para o quiosque....em Maio.

 

 

25.01.17

a chamar o Gregório...

Joana Marques

O Sr. Ludovino liga-me muitas vezes.

Às vezes estou a pensar em ligar-lhe mas antecipa-se sempre.

 

- Joana, tens de voltar!

- Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

- Ainda não mas pode acontecer.

-

 

-Joana, quando é que voltas?

- No fim de Fevereiro, princípio de Março.

- E a reunião? Quando fazes a reunião? E as contas do prédio?

- Não se preocupe. Está tudo organizado.

- Estou para ver quando o prédio for à falência.

-

 

- Joana, hoje esteve alguém em tua casa..

- Deve ter sido o meu irmão.

- Era uma mulher..

- Deve ter sido a minha cunhada.

- E tu deixas?

- Claro! Vai dar uma vista de olhos à casa, rega as plantas e tira o correio. Vê se há alguma coisa importante.

- E ela é de confiança?

-

 

 Um dia destes liga-me. Em pânico.

- Joana tens MESMO de voltar!

- Então, porquê?

- Está um intruso a morar no prédio..

- Um intruso? Como assim? Um gato? Um rato?

- UM HOMEM!

- Um homem??

- Sim, está a morar na casa dos Alvarez.

- Ah!

 

O meu prédio tem desde há muito tempo um andar vago no primeiro andar.

No direito mora a dona Cândida e o senhor Manel no esquerdo morou em tempos um casal com dois filhos.

Os filhos casaram e mudaram-se.

O casal reformou-se e foi morar para perto da Guarda.

Entretanto, já lá morou uma sobrinha durante um curto espaço de tempo.

No verão a casa também é ocupada por familiares.

Só os vi umas 3 vezes.

Pagam o condomínio por transferência bancária.

Envio-lhe as contas do prédio todos os anos.

Sempre me pareceram pessoas simples e do bem.

 

No dia seguinte ao telefonema, Sr. Ludovino liga-me outra vez.

- Joana, tens de vir para cá.

- Estamos à mercê de um desconhecido. Pode ser um ladrão.

- Já falou com ele?

- Não posso falar com ele.

- Não pode!?

- Ele não me responde. É o que te digo. Ele é esquisito. É estranho.

 

Achei um exagero, mas...

...por via das dúvidas liguei para a dona Cândida.

- Ah! Não te preocupes. É sobrinho dos Alvarez. É filho da irmã mais nova da dona Albertina. É americano. Chama-se Gregory e está cá a fazer uma especialização. Parece que é médico.

 

Fiquei mais descansada.

 

Liga-me o Sr Ludovino.

- Quando é que voltas?

- Ó Sr. Ludovino, já lhe disse lá para finais de Fevereiro.

- Ó Joana, espera aí...que já falamos...

 

E ouço lá ao fundo a voz do Sr. Ludovino..

- Ó Gregório...Ó GREGÓOOOOOOORIO! Rais partam o homem que não me responde....Ó Gregóoooooooooorio..........tu não me vires as costas....ouviste??

 

06.12.16

um cântico de Natal...

Joana Marques

Quarta-feira da semana passada...o meu último dia em Lisboa..

Acordo muito cedo....saio da cama antes das 5 horas da manhã..

Podia não acordar tão cedo mas preciso de ir correr..

..se não começar o dia a correr..não é dia!

Está a chover muito..

Quero lá saber...corro mesmo assim!

 

Chego ao trabalho antes das sete..

Despacho trabalho..muito trabalho..

Almoço.

 

Vou para Faro para uma reunião.

Volto de Faro.

Vou a correr para casa porque tenho um jantar de Natal da empresa e preciso de me vestir em condições.

Chego a Carcavelos chove torrencialmente.

Fico pronta para o jantar.

Chove, chove, troveja...parece o fim do mundo..

 

Chego ao restaurante e fico dentro do carro à espera que passe a chuva...

Janto.

 

Volto para casa.

Já não chove.

22h!

Encontro a Dona Helena.

- O Ludovino saiu para despejar o lixo. Ainda não voltou. Estou preocupada. Já liguei. Não atende o telemóvel.

 

Sr. Ludovino tinha um telemóvel há muitos anos.

Igual a este..

nokia.jpg

 

Liga-me um dia:

- Quando chegares passa por cá. O meu telemóvel não dá nada.

- Se calhar avariou..

- Não digas asneiras, Joana. Claro que não avariou...

Avariou...

 

O filho mais velho do Sr. Ludovino deu-lhe o dele. Um smartphone. Samsung.

Sr. Ludovino andava louco.

-Isto não é um telefone. Onde é que estão os números??

Por um lado irritado porque não conseguia ligar a ninguém...por outro lado vaidoso porque tinha um telemóvel top!

- É melhor do que o teu Joana!

 

22h.

Carcavelos.

Fui ver do Sr. Ludovino.

O espetacular deste homem é que não deita o lixo fora nos contentores que temos mesmo em frente ao prédio.

- Nunca! Ainda sabem coisas...

Também não tem cartão do continente porque podem saber alguma coisa sobre a vida dele...

 

Big brother is watching you!!

 

Começo a percorrer todas as capelinhas de Carcavelos...neste caso todos os caixotes do lixo...de Carcavelos...

Avistei o Sr Ludovino!

- Então?? Por onde é que anda. A Dona Helena está preocupada......

- Tonterias. Saí de casa agora..

- Ela já lhe ligou montes de vezes!

- Ligou?

Tira o telemóvel...

- Não ouviu?? Se calhar está no silêncio..

Tiro o meu telemóvel e ligo-lhe...

Ouve-se o toque do Sr. Ludovino..

- Ah! Então é isto!

-

- Fartei-me de ouvir esta música de Natal todo o caminho..

- E não atendeu?

- Pensei que a música vinha da casa das pessoas. Até disse para mim mesmo....olha!...está toda a gente a ouvir..... a mesma música...

 

O toque do telemóvel é este:

 

23.11.16

o pão nosso de cada dia....

Joana Marques

E Joana, este ser iluminado percebeu que não tem tido tempo de fazer pão.

Há uma infinidade de tempo que anda a comer pão feito pelos outros.

E a Joana não gosta muito do pão de compra.

Porque acha que o melhor pão é o dela. (presunção e água benta cada um toma a que quer....)

E como não tem mais nada para fazer, Joana, este ser sobredotado que Deus deu ao mundo, quer muito comer pão feito por si.

- E se o mundo acaba amanhã e eu não chego a comer o meu pão nunca mais na vida?

Pensa, Joana obra-prima de sua mãe e de seu pai.

E Joana vê que tem fermento em casa.

E Joana percebe que não tem farinha em casa.

São 18h30.

Se for depressa ainda consegue chegar à mercearia aqui do bairro e comprar todo o stock de farinha.

E Joana sai de casa.

E está a chover canivetes.

E Joana não tem chapéu.

 

Joana entra que nem um pintaínho na mercearia.

Toda a gente olha.

Joana está-se nas tintas.

Joana compra a farinha e mais uma centena de coisas que precisa mesmo de comprar. Tipo cotonetes e cenas...

Joana paga a conta e compra um saco.

E como os sacos custam 10 cêntimos.

Compra só um saco.

O saco está cheio, cheio.

 

Então Joana pega num pacote de leite de arroz e põe dentro da mala.

O saco continua cheio. Muito cheio.

Já não chovem canivetes.

Os pingos são do tamanho de vacas leiteiras.

E Joana vai formosa e não segura para casa.

 

E de repente repara que os pacotes de farinha se estão a molhar e entra no prédio e vai ajeitá-los e um explode.

E como está tudo molhado...fica assim uma nhanha....nas mãos....

 

 

E Joana, este ser digno de um prémio nobel...da estupidez..sobe até ao segundo andar..e vai espalhando farinha por onde passa...e nhanha.....

Não contente com todo este cenário, toda ela é farinha..e nhanha...

E chega a casa aflita com o peso. E prepara-se para ir buscar os utensílios de limpeza para limpar o que sujou...

 

Tocam à campaínha!

- Joana, o nosso prédio está cheio de pó branco.

- Sim, eu sei....

Interrompe-me.

- Deve ser carbúnculo.. (anthrax...para as pessoas normais, carbúnculo para o Sr Ludovino...que era oficial da Marianha...e diz palavras como carbúnculo...)

- Car...quê??

- Algo que nos pode matar em horas..

- Não, é far...

Interrompe-me.

- Acho que foram os russos.

- Os russos?? Não! Fui...

Interrompe-me.

- Achas que foram os da Nato?? (temos a Nato relativamente perto de casa...)

Desisti de explicar...e desci..

Joana, a branca de neve.....em modo nhanha...

 
E o pão?

Espetáculo!!

pao1.jpg

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Joana Marques

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