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Quiosque da Joana

17.08.18

a prótese...

Joana Marques

Temos estado no Alentejo.

Toda a minha família está no Algarve em casa do meu irmão.

Os meus pais, a minha irmã e família incluindo a sogra; o meu irmão e família incluindo os sogros.

Prometemos passar por lá.

Ficou combinado que dormíamos lá uma noite, queríamos dar um pulo a Marrocos e seria mais fácil iniciar a viagem estando no Algarve do que no Alto Alentejo.

 

Liguei ao senhor Ludovino, que também está no Algarve, para lhe dizer que passava por lá para o ver.

Muito queixoso ao telefone e com uma voz sumida lá me disse:

- Vem, vem....

Mais tarde ligou e convidou-nos a almoçar lá em casa.

Disse que sim.

 

A viagem correu bem.

A Alice, dormiu a viagem TODA!

O senhor Ludovino recebeu-nos com um ar de quem ia morrer a qualquer momento.

- O que é que tem? O que é que se passa?

Perguntou o Pedro.

- Um mau estar geral. Não estou bem em lado nenhum...

O Pedro disse que ia ao carro buscar a malinha onde tem todos os instrumentos que precisa para fazer diagnósticos rápidos....

Nunca sai de casa sem isso.

O senhor Ludovino disse logo..

- Nem pensar, vamos mas é almoçar....depois de almoço tratamos disso.

Fomos presenteados com uma panela de galinha e uma travessa gigante de batatas fritas. Fizeram salada...

- Vocês gostam, não gostam? Perguntou-nos a olhar para a salada.

Comemos. Fazemos uma alimentação saudável mas somos só 99% fundamentalistas. Deixamos 1% para situações como esta.

Estava muito bom o almoço. Já não comia batatas fritas desde nem sei quando....a verdade é que no dia a dia não me apetecem, mas souberam-me bem.

Bebemos café.

A Alice foi comendo connosco, com a minha ajuda e com a do Pedro. Portou-se lindamente.

Devo ter sido uma mártir na minha reencarnação passada e como recompensa o universo deu-me a Alice. Não encontro outra explicação.

 

Depois do café começaram as queixas do Senhor Ludovino.

- Dói-me tudo. Nunca estou bem.

O Pedro lá foi ao carro buscar o que precisava.

São as pernas e a má circulação? Perguntou o Pedro.

O Pedro viu-lhe as pernas e pareceu-lhe tudo bem.

- Ai! Estou que nem posso.

- Tem tosse? Dificuldades a engolir?

- Não. É um mau estar...

O Pedro mediu-lhe a tensão arterial.

Estava boa.

Viu-lhe os olhos. E os ouvidos.

- E diabetes? Tem feito as medições semanais?

- Não. Vou buscar a máquina.

Não fizeram logo a medição porque o Pedro disse que deveria esperar mais ou menos duas horas após a refeição.

Estivemos à conversa. O tempo passou a correr. E lá lhe mediu o nível de açúcar no sangue. Tudo em ordem.

 

- Aparentemente, pelo que consigo ver, não encontro nada que lhe cause o mau estar de que fala. Beba água. Mesmo que não sinta sede. Dê um passeio de 30 minutos, pela fresca. De manhã ou à noite. Se fizer o passeio de manhã e outro à noite, melhor....

 

O senhor Ludovino olhou para ele com um ar tão desconsolado!

- Sabe, só me sinto bem à noite. Durante o dia nunca ando bem...

- Ah! Está mais fresco, não é?

- Não, não é do calor...

- Sabe é quando tiro a placa de baixo. Sinto um alívio que nem faz ideia....

 

 

 

A placa dos dentes partiu e aleija-o. Usa-a durante o dia, diz que parece um velho desdentado, se não a usar.

Podia ter começado por aí....mas não.

Obrigou o Pedro a fazer um exame completo.

Foi virado pelo avesso.... 

 

E afinal o problema estava dentro da boca. A prótese...senhores! A prótese!

 

Eu e o Pedro fomos salvos pela Alice.

Na hora H a miúda fez umas palhaçadas e nós chorámos a rir....

 

Há dois anos no Quiosque!

Dois posts!

Primeiro Post: o meu agradecimento à equipa do Sapo, pelos destaques.

Segundo Post: os meus dramas amorosos.

 

 

Há um ano no Quiosque!

Dois posts!

Primeiro Post: Um português em Barcelona que se cruzou no meu caminho.

 

Segundo Post: o atentado em Barcelona. Faz hoje um ano. 

Para mim parece que foi noutra vida....

....sinto-o tão distante.

 

 

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10.08.18

Guada quê?

Joana Marques

O senhor Ludovino tem estado no Algarve de onde é natural.

Primeiro foi com o filho mais velho passar uma parte de Julho.

Agora está sozinho com a mulher e aguardam a chegada do filho mais novo.

Deve lá estar até meados de Setembro se não se chatear de lá estar.

- Não há nada aqui. 

- Não se passa nada aqui.

- Ai, Joana tenho tantas saudades.

- Nem acredito que me convenceram a passar férias aqui.

- Se passares um dia por aqui deixa-me voltar contigo.

- Que ideia dos meus filhos! Passar férias no Algarve quando podemos passar férias em Carcavelos.

- Estou isolado não falo com ninguém.

- Já fiz as malas e estou pronto para voltar mas ninguém me dá boleia.

- E se me dá alguma coisa durante a noite não há um hospital decente para me socorrer.

- Olha lá! Não queres vir passar cá uns dias. Tens é de trazer o Pedro...NÃO TE ESQUEÇAS DO PEDRO!

 

Sempre que lhe telefono é isto.

O senhor Ludovino está em sofrimento no Algarve. Porque sim e porque sim.

Ontem liguei-lhe e para mudar de assunto. E parar com as lamurias todas. Disse-lhe!

- Senhor Ludovino, ainda não lhe contei. Estou grávida!

- Grávida?? Outra vez?

- Outra vez, como?? Nunca estive grávida na vida....

- Ah! Pois devo estar a confundir com outra....

- Ainda está muito no início, não sabemos se é menino ou menina..

- Ah!

- Vai se chamar João ou Mariana...

- Mariana?? Que raio de nome escolheste!! Devia ser Guadalupe...

- Guada quê???

- Guadalupe...isso é que é um nome! 

- Vai ser Mariana, se for uma menina...

- O teu marido sabe?

- Claro...foi escolhido pelos dois...

- Olha, fala-lhe de Guadalupe....ainda vão a tempo de mudar.

 

 

E sim. Até sabermos de que raça é a criança será chamada de Guadalupe.

Guada quê?

Gaudalupe.

Neste momento, Guadalupe já não é bem uma semente.

Já é um feto.

E por isso precisa de um nome com outro estatuto.

Guadalupe é para lá de perfeito.

 

Quase, quase a entrar na nona semana, Guadalupe é do tamanho de uma framboesa.

Já tem pernas e tem braços.

Já consegue sentir o próprio coração se colocar a mão no peito no lado certo.

Se for como a mãe deve andar uma bocado às aranhas, a tentar perceber onde é que é a direita, onde é que é a esquerda.

Custa-me a acreditar mas o Pedro, pai de Guadalupe diz que já sente movimentos bruscos ou ruídos fortes, será?

Pode ser que lá cheguem os beijinhos da irmã Alice.

O pai de Alice e Guadalupe ensinou-lhe a dar beijinhos na minha barriga.

E ela dá...não só a mim.

Também já apanhou as barrigas do pai e do Vasco....o frango assado ficou muito sensibilizado.

 

Eu continuo sem qualquer sintoma maléfico. Daqueles que dão que fazer. E que são desagradáveis.

Já fiz análises.

Foi duro.

Quase faleci.

O senhor que me tirou sangue parecia um liquidificador, sem tampa. 

Enquanto o senhor falava, mãe de Guadalupe era abençoada por microrganismos húmidos e voadores. 

Sem se poder desviar. Quando se tem uma agulha espetada num braço é chato fazer movimentos bruscos.

O pai de Guadalupe quase ficou com uma hérnia de tanto conter o riso.

 

Vamos de férias uns dias. 

Vamos andar pelo Alentejo mas daremos um saltinho a Marrocos.

O Quiosque não fechará totalmente. Mãe de Guadalupe já escreveu alguns posts. 

 

 

 

Há dois anos no Quiosque!

Um almoço daqueles de cortar os pulsos.

Eu, a minha solteirice e os homens tristes que me apareciam à frente.

 

Há um ano no Quiosque!

Uma reflexão sobre estar fora do país e a responsabilidade que sentia!

Não sei se neste momento o Quiosque é lido por alguém que está fora do país como eu estive.

Se sim, um abraço forte....

 

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04.07.18

a vingança do Senhor Ludovino..

Joana Marques

Para perceberem a dimensão do acontecimento, devem ler primeiro este post!

 

Devíamos ter chegado no Sábado mas está-se tão bem no Alentejo que prolongámos a estadia até não mais poder.

Chegámos no Domingo, depois de almoçar em casa dos pais do Pedro.

Senhor Ludovino que já não nos via desde o dia nosso casamento saudou-nos efusivamente.

Depois de todos os cumprimentos, olhou para a Alice e disse:

- É mesmo bonita esta menina...

E mandou-nos esperar.

Voltou.

E entregou à Alice um saco com um presente.

Ajudei-a a rasgar o papel.

E...

......com um milhão de Slimanis. Era um pianinho.

Eu e o Pedro enfartámos ao mesmo tempo.

Diz-me o Pedro...

- Chamamos o Onofre, outra vez?

E o senhor Ludovino meteu-se na conversa..

- Ah! Vocês conhecem o meu amigo Onofre, aquele que tem diabetes. Coitado! Já lhe cortaram um dedo do pé e tudo..

- Ó senhor Ludovino esse não se chama Gilberto?

- Ai, Joana! Estou tão velho que até já troco o nome dos meus amigos. Esse é o Gilberto é...o Onofre é o aquele que trabalhava no forno crematório do Alto de São João, coitado está quase cego...

- Diabetes? Perguntou o Pedro.

- Não, não, acho que foi por causa dos gazes...

 

- Estejam descansados quanto às pilhas!

- As pilhas?

- Sim, do brinquedo! Deitei as originais fora e comprei da marca durex.

- Duracel?

- Talvez..mas tenho quase a certeza que comprei durex...

 

A conversa ficou por aqui.

A Alice brincou com o pianinho o resto do Domingo.

Não é tão irritante como a corneta. Mas...

....estou a dar em maluca.

Não voltei a chamar o Onofre porque...

...não tive coragem. Mas ando a pensar numa maneira qualquer de desviar o pianinho...

 

Boomerang.

A lei do retorno.

Cá se fazem, cá se pagam.

A vingança serve-se fria.

Onofre, o burrinho alentejano...foi vingado, pelo senhor Ludovino!

 

12.03.18

a central L

Joana Marques

Depois do almoço passei pela minha casa. A verdadeira. A de Carcavelos.

Mal estacionei o carro. Apareceu o Sr. Ludovino.

Um rol de queixas. E de informações...

- Não fazem nada.

- Claro que fazem. Mesmo assim, até está a correr bem.

- Dizes tu porque é em tua casa, e no prédio?? Não tocaram no prédio!

- Não, porque tem chovido. É chato começarem a arranjar o telhado com o tempo chuvoso. Calma, tudo se arranja.

- Desculpas!! Nem tem chovido nada de jeito...

- Vou lá acima ver como estão as coisas...

 

O Senhor Ludovino foi comigo. Claro!

Entrei em casa. Disse boa tarde. Cumprimentei...aquelas formalidades.

Senhor Ludovino. Com o cotovelo chama por mim. E diz baixinho.

- Aquele que está ali tem uma mulher loura 20 anos mais nova que ele.

- Shiuuuuu. Fiz eu.

Olhei para o marido da loura. Pareceu-me demasiado novo para ter uma mulher 20 anos mais nova, mas...

 

Com o cotovelo.

- Aquele que ali está, vai todos os dias almoçar, ao Centro Comercial, come carne com minhocas (Mcdonald's). Já viste o ar dele? Não vai andar cá muito tempo....já deve ter apanhado o fígado...

- Shiuuuuuuuuuu. Não interessa. Não quero saber.

 

Dou mais uma volta. Mostram-me a casa de banho, quase pronta. E vem Sr. Ludovino.

Com o cotovelo.

Para logo a seguir, me puxar-me para fora da casa de banho.

- Estás a ver aquele de camisola deslavada, cor de tijolo??? É da tua idade, também já tem um filho, não queres conhece-lo melhor?

- Não!

- Olha que pode ser um bom partido. É trabalhador. Chega sempre a horas. Não fuma. Não bebe. E parece uma pessoa asseada.

- Shiuuuuuuuuuuu. Não!

Ficou com ar de: esta mulher não vê a sorte grande mesmo quando ela está dentro da própria casa...

Depressa voltou ao normal.

 

Apontou, para outro senhor.

- Aquele ali é do Norte, mas casou-se com uma Alentejana. Tem 3 filhos. Traz comida de casa. Almoço, lanche da manhã e lanche da tarde. Mas não é a mulher que lho faz, tem cá a mãe a viver com eles.

-

 

O encarregado da obra não estava.

Tinha ido beber um café.

Quando chegou eu estava a falar com um senhor que me estava a dizer o que será feito nos próximos dias.

- Só um momento. Diz o Senhor Ludovino.

E dá-me um beliscão no braço.

- Chega aqui. Chega aqui. Estás a ver aquele ali, é o encarregado. Manda nisto tudo,  mas é um desgraçado. Vê lá tu que só da parte do pai...tem mais de 20 irmãos.

 

Central L. Aberta 24 horas por dia.

Numa rua de Carcavelos. Mesmo ao lado da minha casa.

E eu. Ansiosa por voltar!

24.02.18

de olhos em bico

Joana Marques

As coisas por casa do Sr. Ludovino andam um pouco tristes.

O irmão da mulher morreu a semana passada.

O Sr. Ludovino sai de casa todos os dias. Dá o seu passeio. Compra o pão.

E vai sentenciar as obras na minha casa.

Muitas, muitas vezes ao dia.

- Joana, esta gente não faz nada. Estás mal. Nunca mais mudas de casa.

A mulher dele, tem problemas complicados nos joelhos e não se mexe muito.

Quase não sai de casa. Custa-lhe a andar.

Durante a semana foi complicado. Dar-lhes atenção.

Vim de Angola. Fiz anos. Tentei recuperar as rotinas. Tudo isso me roubou tempo. E disponibilidade.

Este sábado não escapou.

Convidei o Sr. Ludovino e a mulher para almoçar.

Normalmente, costumamos ir comer qualquer coisa à "Chaleira" que fica perto de nós.

Mas desta vez não os levei lá.

Entraram no carro.

E...

- Onde é que nos levas?

- Para onde é que vamos?

- Quando é que chegamos?

- Tens a certeza que é este o caminho?

- Não sei se quero ir...

- Tens a certeza que sabes o que estás a fazer??

 

A Alice, portou-se melhor que o Sr. Ludovino.

Lá chegámos.

Ao restaurante chinês.

Achei que deviam ter a experiência.

A ladainha começou antes de entrarmos.

- Isto não é bom.

- Vão nos dar minhocas.

- Deus me livre comer aí.

- Não como nada.

- Não gosto de nada.

Quando entrámos.

Indicaram-nos a mesa.

E eu escolhi os pratos. Tinha de ser algo soft.

Pedi, frango frito com amêndoas. E arroz branco.

- Este restaurante é tão bonito.

- Ai estes quadros. Tudo tão lindo.

- O empregado é tão simpático.

- Esta comida é tão boa.

- Acho que devíamos voltar cá para a semana.

- Hummm, está mesmo, mesmo bom.

Pedimos os cafés.

- Este café é excelente.

- Mesmo muito bom este café.

No fim. Apareceram com 3 toalhinhas.

- Nunca tinha visto isto em lado nenhum.

- Isto é um restaurante chinês chique.

- É o melhor restaurante das redondezas.

- Tenho que cá vir quando fizer anos.

Veio a conta. Acompanhada de 3 rebuçados.

- Que maravilha.

- Nunca fui tão bem tratado na vida.

- Dá mesmo vontade de voltar.

 

Era sábado. O restaurante estava cheio. Cheio.

E quando saímos.

O Sr. Ludovino diz. Muito alto.

- Ó Senhor chinês.

Para o empregado que nos tinha atendido.

- Senhor chinês. Estava tudo muito bom. Obrigado!

 

Todo o caminho de volta.

A gabar o chinês.

Já me ligou duas vezes. A dizer bem do restaurante.

- É por isso é que eles têm os olhos em bico! É de ver coisas boas!! Sábado temos de voltar lá....

E é isto a minha vida...

 

14.02.18

happy! Is the new rich...

Joana Marques

A engenheira ligou-me.

Para ir até Carcavelos. Queria que eu visse o chão de madeira, dos quartos.

Confirmar se era mesmo, mesmo o que eu queria.

- Não pode ser amanhã?

Não podia.

Tinha mesmo de ser hoje. Já. Imediatamente.

Logo hoje que estou com a Alice.

Ando a trabalhar aos bocadinhos. Comecei às 6h. Parei às 7h30.

Recomecei às 10h. E parei às 11h30.

Voltei a pegar no trabalho às 16h.

E agora a francesa.

- Já vou. Quando a Alice acordar, vou para aí.

Ainda lhe dei o lanche.

O que vale é que o cão tem colaborado. Com quase 4 anos. Pode ser que esteja mais maduro. Mais crescido.

O dia até está a correr bem.

 

Lá segui para Carcavelos.

Eu e a Alice.

Cheguei ao prédio.

Sr. Ludovino.

- Estás cá outra vez?

- Estou. Querem que eu vá ver o chão.

- Já vi. Está a ficar bom.

Senhor Ludovino, não pode subir escadas porque segundo ele, está muito velho para isso, mas não perde uma oportunidade de ir espreitar as obras. Dar opinião. E aconselhar a fazer as coisas de outra forma.

 

Deixei a Alice cá em baixo com a dona Helena, a mulher do Sr. Ludovino. E subi. Com ele.

Cumprimentei as pessoas que estavam em minha casa. Incluindo a engenheira.

Olhei para o chão.

- É mesmo isto. Está muito bom.

Mas....

....um cheiro. A tintas, ou qualquer coisa similar. Invadiu as minhas narinas.

Digo para a engenheira que terminamos a conversa cá fora.

Sempre com o Sr. Ludovino ao meu lado.

 

A engenheira dá ares de não perceber a minha pressa em sair dali. E eu digo:

- Je suis asmatique.

O Sr. Ludovino olha para mim com o ar mais incrédulo de sempre e diz.

- O que raio é que disseste à francesa??? És um asno rico??

 

O ar do Sr. Ludovino quando comecei a rir.

O ar da francesa quando comecei a rir.

O ar dos senhores, que estavam lá em casa, quando comecei a rir.

Foi impagável.

O rótulo de destrambelhada já ninguém me tira. E o de pateta alegre também não.

 

happy1.jpg

mais histórias do Sr. Ludovino aqui.

 

11.02.18

o poder de um espirro

Joana Marques

Passei o fim de semana na Sertã. Na casa que agora é da minha irmã.

O tempo ajudou. Ontem esteve um dia muito bom.

O Vasco correu que se fartou. E a Alice brincou cá fora.

Dormiu a sesta da tarde na rua e tudo. Ao nosso lado.

 

A minha irmã, o marido e a Inês ficaram lá. A aproveitar o fim de semana prolongado.

Mas eu não. Não podia.

Não me posso dar ao luxo de não trabalhar amanhã.

Estou com trabalho até ao pescoço.

 

Passei por Carcavelos.

Para deixar uma fatura.

Amanhã, vão entregar o chão dos quartos. E convém confirmar se vem mesmo aquilo que foi encomendado.

Já tive más experiências outras vezes.

 

Mal entrei no prédio.

Apareceu o Sr. Ludovino.

Muito combalido.

Muito queixoso.

-Nem sabes, acho que desloquei a bacia.

- A sério? Então? Caiu.

- Não. Espirrei...

 

Não me contive.

Comecei a rir. E não consegui parar.

- Faz pouco, Joana. Quando tiveres a minha idade vais ver como é.

Não consegui parar.

Continuei a rir.

Com a Alice ao colo. O Vasco ao lado.

Ria que nem uma perdida.

Fui a casa deixar a fatura. Sem conseguir parar de rir.

Fiz a viagem para casa, a rir.

E cada vez que me lembro do ar do Sr. Ludovino. Não consigo parar.

 

O pior.

Ri-me tanto. Sem parar. Por tanto tempo.

Acho que desloquei o maxilar. 

 

O efeito de um espirro. Anca e maxilar abatidos.

Imaginem, quando este homem se constipar...

  

 

mais histórias do Sr. Ludovino aqui.

 

10.02.18

se eu tivesse um aneurisma. Tinha rebentado. Ontem.

Joana Marques

Ontem, passei à tardinha por Carcavelos.

Tinha combinado com a engenheira. Decidir algumas coisas. Para começarmos a ver a luz ao fundo do túnel.

 

Entro no prédio.

E Sr. Ludovino aparece.

Em ponto de rebuçado.

- Nem sabes! A minha televisão avariou.

Sr. Ludovino é o maior consumidor de novelas que Portugal já viu.

Acho que a TVI e a SIC juntas trabalham diretamente só para ele.

Entro em casa dele.

 

Experimento o comando. Nada.

Verifico os cabos. Parecia tudo em ordem.

- Deve ter avariado mesmo.

Sr. Ludovino. Tão infeliz.

- Não fique assim, tem uma na varanda.

- Está muito frio na varanda.

Ainda me ofereci para mudar a televisão da varanda para a sala. mas não aceitou.

- Se quiser vamos os dois comprar uma televisão nova.

- O Miguel (o filho) trata disso.

 

A engenheira deve ter ouvido a minha voz e apareceu.

Pediu licença para entrar. E entrou na sala.

Nisto. Olho para a televisão e vejo que estão duas saquetas de cromos na parte da frente da televisão.

- É para os miúdos. (os netos)

Ao que parece um supermercado anda a oferecer cromos.

Tiro os cromos.

E com o comando. Ligo a televisão.

O Sr. Ludovino olha para mim como se eu fosse a santa protetora dos idosos sem televisão.

- Ah! Joana...

A dona Helena é apanhada de surpresa.

- Ó Helena! Os cromos naquele sitio não deixam o comando ligar a televisão. É como se o comando tivesse um preservativo. Percebes??? Um preservativo!!

 

A engenheira com um ar impávido e sereno.

A dona Helena sem perceber bem o que se tinha passado.

O Sr. Ludovino demasiado entusiasmado.

 

Ó Meu Deus.

Apoderou-se de mim uma vontade de rir.

Mas não podia.

Com esforço que fiz. As lágrimas escorriam pela cara abaixo.

- É das alergias. É das alergias.

 

Se eu tivesse um aneurisma. Tinha rebentado. Ontem.

 

mais histórias do Sr. Ludovino aqui.

07.02.18

a falar francês

Joana Marques

As obras em minha casa já começaram.

E eu tento acompanhar como posso.

Tento lá ir pelo menos dia sim, dia não.

A obra está a cargo da empresa do meu irmão.

Não é a especialidade deles mas eu fiz um choradinho tão grande que acabaram por aceitar.

 

A empresa do meu irmão tem dois sócios. Ele e um grande amigo, colega de faculdade.

Com a crise, o meu irmão e o sócio acabaram por emigrar para Angola.

Depois, ficou só o sócio e o meu irmão voltou.

Mas concorreu a uma obra na Noruega e emigrou outra vez.

Neste momento, o sócio continua em Angola. O meu irmão na Noruega e cá têm à frente da empresa uma engenheira.

Nasceu em França. Filha de pais portugueses.

Ainda pouco fala português.

 

Combinei com ela depois de almoço. Em Carcavelos. Em minha casa.

Quando cheguei.

Ouvi ao longe a voz do Sr. Ludovino.

- Ó diabo. Não me digas que está a ralhar com a engenheira...

Voei até à entrada do prédio.

- SERÁ QUE PODIAM...

- Boa tarde! O que é que se passa? Perguntei eu...

- Ela não percebe patavina do que eu digo...

- Eu sei, não sabe português...só fala francês...

- POR ISSO É QUE EU ESTOU A FALAR ASSIM....

Disse ele muito alto e a gesticular...para mim e para a engenheira...

- Para ver se ela percebe alguma coisa...por CAUSA DAQUELA TORNEIRA DA GARAGEM, PODIAM IR LÁ DAR UMA VISTA DE OLHOS..

- Sr. Ludovino, Sr Ludovino...francês não é falar português em voz alta...

- MAS EU ESTOU A ARTICULAR AS PALAVRAS TÃO BEM...

- Sim, mas a senhora não é surda...é só francesa...

 

E convencê-lo??

 

mais histórias do Sr. Ludovino aqui.

27.11.17

a visita do Sr. Ludovino...

Joana Marques

Estou em casa dos meus pais.

Ontem, quando cheguei, liguei ao Sr. Ludovino, a contar a minha desgraça.

 

Hoje, apareceu cá em casa. Para me ver.

Numa mão trazia uma violeta. Que é a minha flor preferida.

Na outra, um saco plástico do Pingo Doce.

Cheio.

Entregou-me o saco.

Quando abri o saco. Apeteceu-me cortar os pulsos.

Dentro dele. Papelada.

Tudo ao molho e fé em Deus.

Comecei a escavar. E comecei a encontrar.

Tudo e qualquer papel referente à administração do prédio.

No meio de extratos bancários. Contas da água. Da luz. E outra correspondência mais ou menos importante.

Estava isto:

umar.jpg

Chorei a rir.

Só este homem e o seu timming...

 

Já agora, Umar, grande médium curandeiro....se me estás a ouvir...

...era o Sporting campeão.

...envia a conta aqui para o quiosque....em Maio.

 

 

Joana Marques

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