Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Quiosque da Joana

11.05.18

o devorador de notícias...

Joana Marques

Ontem à noite, depois de jantar, o Pedro recebeu um email.

Melhor dizendo. Tinha vários email's novos. Mas abriu só um.

Recebe os resultados das análises dos doentes de forma digital e estava à espera destas em particular.

De um doente operado na quarta-feira.

Percebeu que os valores não estavam como deviam estar. E decidiu ir ao hospital.

Chegou hoje. Pelas 6h da manhã.

Eu já estava acordada. O cão já me tinha acordado. E já se tinha deitado outra vez.

Tomei o pequeno almoço. O Pedro, completamente exausto também comeu qualquer coisa.

E foi descansar.

A Alice acordou.

Tratei dela.

E achei por bem. Tirar toda a gente de casa para o homem poder descansar como deve ser.

O cão. E a Alice.

A Alice. E o cão.

Podemos defini-los de muitas maneiras. Silenciosos. Não é uma delas.

Passeámos. À beira mar.

Brincámos.

Chegou a hora do lanche da manhã. A Alice comeu.

E adormeceu no carrinho.

 

Ainda pensei em ir para casa dos meus pais. E deitar a Alice na caminha dela.

Ou voltar para minha casa. A Alice a dormir não faz barulho. E o Vasco também não.

Mas...

....o dia estava mesmo agradável.

Tinha um livro comigo. E o meu tricot.

Sentei-me num banco de jardim. Com o carrinho da Alice ao lado. E o Vasco ao lado do carrinho.

Tirei o tricot.

E com uma vista absolutamente maravilhosa. Tricotei...como se não houvesse amanhã.

 

Um senhor. Mais ou menos da idade dos meus pais.

Perguntou-me:

- Posso-me sentar?

Disse que sim. O banco era grande e eu só ocupava uma parte pequena dele.

Sentou-se na outra ponta.

O Vasco levantou-se num segundo. E no outro esta em cima do banco sentado ao meu lado.

 

A Alice mexeu-se. Afastei a fralda que estava a tapar o carrinho. Para ver se estava tudo bem.

E o senhor.

Inclinou-se para ver a Alice.

Ouvi o Vasco.

Olhei para trás.

O Vasco estava a rosnar. Ao ouvido do senhor.

- Ele não faz mal. É só garganta...

Disse eu para o senhor. O senhor riu-se. Fez-lhe uma festa.

Abriu o jornal e começou a lê-lo.

Eu a tricotar.

E de repente. Ouço um barulho. Que não encaixava bem na situação....

.......

 

Olhei.

O Vasco estava feliz da vida a mastigar.

O Vasco estava entretido a comer o jornal.

Juro. 4 anos de Vasco. E nunca tinha percebido que este cão...era ávido por notícias.

O verdadeiro devorador de notícias.

 

A minha alma. Aparvalhada. Mais do que o costume....

Disse ao senhor que lhe pagava o jornal.

- Não se preocupe. O jornal é de ontem. Tirei-o do café perto da minha casa. Costumo ir lá devolve-lo. Parece-me que hoje não vai acontecer.

 

 

O doente do Pedro está estabilizado.

E fora de perigo.

 

28.04.18

tal pai. Tal filho...

Joana Marques

Fui acordada às 5h30. Pelo cão. Claro!

O Pedro. Deve ter percebido. E para prevenir a minha fuga...

Pôs um braço à volta da minha barriga e eu fiquei sem conseguir sair dali.

Depois de várias tentativas. Lá fui à minha vida.

Começo a sentir bicho carpinteiro e não consigo estar muito tempo sem fazer nada...

 

O cão aproveitou a folga na cama para se deitar.

- Quem foi ao ar perdeu o lugar....

Assim é o lema deste cão.

 

Comi qualquer coisa. E ...

....disse ao Pedro.

- Vou correr. Ficas com a Alice.

Ele respondeu qualquer coisa. O cão resmungou qualquer coisa...

Eu corri. 10 km. Em menos de uma hora. Um novo recorde, desde que parti a perna.

Voltei.

O cão dormia. O Pedro dormia. E a Alice dormia.

Tomei o pequeno almoço. Com toda a calma.

A Alice acordou.

Dei-lhe o pequeno almoço. E dediquei-me a ela de corpo e alma.

Vi de relance. O cão a passar para a cozinha. Fui ter com ele.

Será que queria ir dar uma volta à rua?

Não. Queria comer. Depressa. E voltar para o lugar de onde tinha saído.

Não deixei.

- Vais comigo dar uma volta e acabou-se.

Pus-lhe a trela à força.

 

Disse ao Pedro.

- Vou dar uma volta com a Alice e com o Vasco.

Mais uma vez, disse qualquer coisa, que não percebi.

 

Dei uma volta de uma hora.

O Vasco lá fez xixi e cocó. A Alice disse adeus a uma data de gente.

Estive com ela no parque infantil do condomínio.

E quando eram horas da sesta da manhã voltei.

Adormeceu.

E o Vasco voltou à casa de partida. A minha cama.

Onde está até agora. A partilhar cama, com o homem.

O Pedro trabalhou ontem 16 horas. É duro...

O Vasco não. Mas descansar o dia todo é muito cansativo...toda a gente sabe isso!

 

Já lá fui várias vezes. Para ver se respiravam. Se estavam vivos.

Estão....

....vivos. Yeah!

 

Tal pai. Tal filho.

homens.jpg

 

 

27.04.18

4 anos de Vasco! Terceira história...

Joana Marques

Já tinha feito um ano. Parece-me.

E tinha um apetite voraz...

Cheguei a casa pelas 17. Tinha saído pelas 6 horas da manhã.

Andava com muito trabalho. E tinha tido reuniões o dia todo. Nem tinha tido tempo para almoçar.

Estava esfomeada.

 

Mal cheguei a casa. Tentei leva-lo à rua.

Para despachar o cão. E poder vestir uma roupa mais confortável.

Não quis.

Mantive a roupa  de trabalho. Um vestido de linho. Claro.

 

Vesti um avental. E comecei a preparar o jantar. Frango guisado com ervilhas.

Já tinha o frango cortado em bocadinhos pequeninos.

Foi só juntar o tomate, azeite, enfim...tudo o que faz um guisado.

Por fim. Quando já tinha tudo dentro da panela. Tapei-a.

E fui fazer outra coisa qualquer.

O Vasco andava a rondar.

Como sempre.

Nem liguei.

Estava no terraço. Ouvi um estrondo. Seguido de um guincho.

Não queria acreditar.

O Vasco.

Tinha assaltado a panela do guisado.

E tinha-se atirado ao fogão. Ligado.

A panela desequilibrou-se e caiu para cima dele.

A panela.

As ervilhas.

O frango.

Tudo!

 

Entrei em pânico.

Peguei no cão.

Na minha mala e desci feita louca as escadas do prédio.

O cão gania.

Coloquei-o dentro do carro.

E só parei no veterinário.

O cão ia num sofrimento. Não sabia se seria pela queimadura. Se por ter percebido que ia para o veterinário.

 

Entrei no veterinário.

Com um cão ao colo.

Cheio de ervilhas e frango.

Com um vestido cheio de nhanha guisada.

Modo: "caí no caldeirão da carochinha e não sou o João Ratão"

 

O veterinário do Vasco. Que conhece todas as manhas dele estava a operar um outro bicho indefeso.

Fomos socorridos por uma veterinária. Muito querida. Chamada Rita. Mas que desconhecia que o cão é hipocondríaco.

A Rita tocava no nariz. O cão gania.

A Rita tocava na pata traseira. O cão gania.

E fazia xixi.

A Rita tocava na barriga. O cão gania.

A Rita tocava no armário dos medicamentos. O cão gania.

A Rita falava ao telefone. O cão gania.

 

Depois de ter escrutinado, o cão, centímetro a centímetro. Veio o diagnóstico da Rita.

- Tem uma queimadura ligeira no nariz. Nada de mais. Deve ter ficado assustado....também.

Deu-me uma pomadinha para ir pondo no nariz.

- Se te esqueceres de pôr não tem importância, a queimadura é tão ligeira que daqui a dois dias já nem se nota.

E deu-me uns comprimidos.

- Hoje à noite dá-lhe um. Para o acalmar. Como vai ficar sozinho. Ainda se passa.

 

Voltei para casa.

Ainda em modo. Mogli, o menino da selva.

A deixar ervilhas por onde passava.

 

À noite. Dei-lhe o comprimido.

Coloquei a caixa e a pomada em cima de uma prateleira na cozinha.

Fui-me deitar.

 

No outro dia de manhã. Estranhei.

O meu despertador. Não me acordou.

Levantei-me.

O cão. Estava. Estendido na cozinha.

Quase morri.

Olhei para a prateleira. A caixa de comprimidos tinha desaparecido.

Desaparecido mesmo. Ele comeu os comprimidos. A caixa. E a bula. Tudo..

Limpinho. Limpinho.

Peguei no cão.

Veterinário.

Perdi 10 anos de vida. Com a preocupação. Mas chegámos a tempo.

Este Vasco. É um cão.

Com 7 vidas como os gatos...

 

 

 

27.04.18

4 anos de Vasco. Segunda história...

Joana Marques

O Vasco ainda não tinha dois anos.

 

Uma amiga minha tem uma casa no Funchal e aproveitei para lá ir passar uns dias.

Uns dias antes encontrei-me com ela em Lisboa. Entregou-me a chave.

E eu preparei-me para uns dias de descanso absoluto.

O Vasco foi comigo. Grande erro.

 

Aproveitei para caminhar.

Subi ruas. Desci ruas.

Às vezes com o Vasco.

Outras vezes sozinha.

 

Um certo domingo.

Num dos passeios. Passei à porta de uma igreja.

Estava a decorrer a missa.

Estava tão cheia a igreja que muita gente estava à porta porque não tinha conseguido entrar.

Passei com o Vasco.

As ruas estavam engalanadas. Havia festa.

E uns escuteiros tinham uma banca. Para quando a missa terminasse vender qualquer coisa. Bolos, provavelmente. E, mais tarde, percebi que também estavam a vender calendários.

 

No regresso.

A missa já tinha terminado.

Estava uma imensidão de gente

O Vasco ia pela trela. Mas ao passar pelas pessoas. Sem querer. A trela foi-se.

Não fiquei muito preocupada. Porque o cão consegue encontrar-me até na lua.

Olhei para ver se o via. E decidi subir a um murinho para ver melhor..

Quando estava para subir o muro ouço alguém dizer:

- Ah! Ah! Estás a ver ali aquele cão a assaltar os escuteiros??

 

Toda a minha vida passou diante dos meus olhos.

Podia ter fugido.

Para o continente.

E deixa-lo lá. Na ilha.

Alberto João Jardim que tomasse conta da ocorrência.

Que resolvesse o pepino....

 

Mas não....

....fui ter com os escuteiros. Paguei quase 50€ de bolos.

E comprei calendários. Para compensar de alguma forma as pobres almas, assaltadas.

Naquele ano. Todos. Da família Marques receberam um calendário, no Natal.

Cortesia de Vasco Marques.

 

 

27.04.18

4 anos de Vasco. Primeira história...

Joana Marques

O melhor de ter um cão.

Pensava eu.

Nunca mais ia correr sozinha. E podia explorar sítios diferentes.

Como a Serra de Sintra, por exemplo.

Normalmente ia correr ou fazer caminhadas com o meu irmão e os amigos.

Mas um dia decidi ir com o Vasco.

 

Devia ter pouco mais de um ano.

Saímos por volta das 11h da manhã. Porque tive muita dificuldade em convence-lo a sair de casa.

Casa. Cama. Comida. Boa vida. O que mais pode um cão querer.

Alternativa.

Vento. Frio da Serra. Subir. Descer. Cansaço. E a dona maluca.

Parece-me fácil e óbvia a escolha.

 

Em casa tinha preparado a caminhada.

Conhecia bastante bem o percurso.

Já tinha feito um idêntico com o meu irmão.

O Vasco ia sem trela.

Afastava-se. Voltava.

Deixei-o ir à vontade.

Batizava com xixi. Esta árvore. Porque sim.

E a seguinte. Também.

Esta não. Mas a outra à frente, sim!

E lá íamos nós na nossa vida.

Nem vivalma. Nada. Ninguém.

Afastou-se.

Eu continuei.

Nunca foi um cão de fugir. Gostava de explorar os locais mas voltava sempre.

Demorou-se mais do que a conta.

Comecei a olhar em volta.

Assobiei.

Nada.

Chamei-o. Respondeu-me.

- Ó chata. Já vou.....

Continuei. Como obtive resposta. Não me preocupei.

De repente ouvi gente. Uma confusão. Pessoas a falar alto.

 

Passa por mim o Vasco a correr....

.......com uma espetada na boca...

Eu corri atrás dele. Antes que alguém me quisesse bater...

 

 

17.03.18

convidou-me para um café. Só que...

Joana Marques

Não sei se conhecem...

...a praia do Magoito em Sintra.

Adoro. É uma das praias da minha vida.

É a minha praia de Inverno.

Quando tinha namorado era rara a semana que não passávamos por lá. 

Exceto no verão que tinha e tem demasiada humanidade...

Deixei de ter namorado. Mas passei a ter o Vasco.

Continuei a visitar a praia.

Não de forma tão frequente.

Mas ainda assim, muitas vezes.

Para chegarmos à praia podemos ir por um passadiço de madeira.

Escorregadio quando chove. Que faz as delícias do Vasco.

As patas derrapam e ele gosta. Cada maluco com a sua mania.

 

Se estivessem pessoas na praia não o faria mas como no inverno só lá aparecem dois ou três gatos pingados, costumo soltar o Vasco.

Adora.

Corre que nem um doido.

Uma alegria só vista...e que deve mesmo ser vista. E apreciada.

 

Hoje. Esteve um dia miserável.

Mesmo miserável.

De manhã choveu que se fartou.

Nem deu para sair com a Alice um bocadinho.

Ficámos aqui à porta a ver o Vasco fazer xixi e cocó.

Saí da entrada do prédio #rumoàapanhadecocós.

E toca de entrar em casa.

 

Pensei em fazer o mesmo à tarde.

Mas...

A minha religião não me permite. Ficar um dia fechada em casa.

E depois de ter estado a tricotar e a ver televisão. Enquanto a Alice dormia a sesta.

Comecei a magicar onde poderia ir quando ela acordasse.

Magoito. Pois, claro!

Peguei na Alice. Peguei no cão. E aí fomos nós.

Estacionei o carro.

Saímos. Os três.

Alice no carrinho.

Passadiço de madeira.

Vasco louco de alegria.

Corria. Saía do passadiço.

Entrava no passadiço.

Saía do passadiço. E aparecia com um pau na boca.

Escorregava no passadiço.

Ficava feliz por ter escorregado no passadiço.

Ladrava de felicidade.

Enfim, Vasco no seu melhor.

 

Chegamos à praia.

O Vasco. O espaçoso. A praia era dele.

Corria. Saltava. ladrava.

Bebia água do mar. Não sei porquê mas adora beber água do mar...

Eu com a Alice ao colo. A assistirmos a este espetáculo.

"Vasquito vai à praia"

A Alice ria que nem uma perdida. Apontava. Atirava beijinhos. E dizia adeus.

Em resumo. Todas as graças que já sabe fazer.

 

Dez minutos passados. E apareceu um senhor na praia com um cão.

Também solto.

- Aquele cão é seu?

- Sim, é.

Como o Vasco estava num dia de exuberância extrema achei que me ia pedir para o prender. Mas não..

- Gosto imenso de vir para aqui com a Tekas (a cadela). Faz-lhe bem andar livremente.

Quando percebi que era uma cadela. Tive medo.

E se ele profana a cadela? OMG!

 

Não...

O Vasco nem olhou para a cadela.

O Vasco não sabe que é um cão...está-se nas tintas para os da espécie dele.

Os olhos do Vasco concentraram-se num e num só alvo.

O dono da Tekas.

Devia ser mais ou menos da minha idade.

Tinha muito bom aspeto.

Era simpático.

Convidou-me para um café. Que não aconteceu.

Chamava-se Duarte.

Chamava-se e chama-se. O Vasco não o matou.

Só lhe vomitou os sapatos. 

 

 

30.01.18

em Portugal...

Joana Marques

A Alice já nem se lembra que tem uma mãe.

Está feliz da vida com os meus pais.

Rotinas iguais.

Continua a comer bem.

A gostar de brincar com o boneco preferido. O elefante que mexe as orelhas.

Gosta que lhe leiam um livro. Gosta muito de estar ao colo.

Gatinha a alta velocidade.

Continua a mesma estouvada. A mergulhar de cabeça onde não deve. É de borracha.

 

Por outro lado.

Temos o outro filho. O que se lembra de mim.

Não come. Ou mal come.

Só se lhe derem biscoitos à boca. Se for obrigado...

A água também tem de ser dada quase à força.

Está esteirado no sofá do escritório.

E embrulhado porque treme frequentemente.

Chora.

vasco1s.jpg

Saí exausta de Portugal. Por causa dele.

Estava capaz de o deserdar....mas acho que lhe vou perdoar outra vez...

...é a última vez...a partir de agora vou ser muito mais rígida com ele...

ou não me chamo Vasquina....

 

27.01.18

O sonho. E a realidade.

Joana Marques

Estou de partida para Nova Iorque.

A semana que passou foi de loucos.

Aquelas coisas que costumo deixar para sexta à tarde e para o fim de semana foram feitas ao longo da semana.

Lavar a roupa. Passar a ferro. Trocar as camas. Limpezas.

Hoje tinha planos.

 

o sonho

Aproveitar a manhã para fazer a mala.

A Alice ia acordar por volta das 7.

 Pequeno almoço.

Sair com ela e com o cão. Dar uma volta aqui pelas redondezas.

Voltar a casa.

Brincar um bocadinho com ela.

Adormece-la.

Almoçar antes dela acordar.

Quando ela acordasse dava-lhe o almoço.

Pegava nela e no Vasco e ia até casa dos meus pais.

Ia enviar uma mensagem ao meu pai para ele vir cá fora ajudar-me com a tralha.

Ia ler um livro à Alice. Até ela adormecer.

Ficava lá por casa. Ou ia passear o cão.

A Alice ia acordar. Ia dar-lhe o lanche.

E íamos brincar. O cão devia juntar-se à brincadeira. E o meu pai também.

Banho. E logo a seguir o jantar.

Ultima história do dia. Ia adormece-la.

Deita-la.

Ia ficar a vê-la dormir.

Ia passear com o Vasco.

E de seguida, jantar com os meus pais.

Sporting.

E ia para casa.

Amanhã. Nova Iorque.

Seria uma transição suave para a Alice. Para não ser traumático para ela.

Já teve tantas mudanças na vida.

 

a realidade

 

Fui acordada pelo cão. Como de costume.

Cedo. Como eu gosto.

Fui espreitar a Alice.

O cão viu qualquer coisa que o inquietou e desatou a ladrar que nem um tarado.

A Alice acordou, com a barulheira.

5h30 da manhã. Já não dormiu mais.

Bonito! Não tomei banho. Não tomei o pequeno almoço. E a mala feita....só na minha imaginação.

A Alice chorava que nem uma Madalena. E o cão ladrava. E eu só pensava nos vizinhos...

Tratei da Alice. Dei-lhe o pequeno almoço.

O cão precisava mesmo de ir à rua.

Estava frio.

Enchouricei a miúda dentro da roupa. Enchouricei-me a mim também.

Alice no carrinho. A reclamar.

Não estava nos dias dela.

O cão feliz da vida. Formoso e seguro. Pelas ruas.

Xixi aqui. Xixi ali. A vida é uma festa.

Cocó. A vida é uma festa mas às vezes cheira mal.

 

Voltei a casa. A Alice sempre meio chorosa.

Embalei-a.

Ainda não tinha tomado banho. Ainda não tinha tomado o pequeno almoço.

A Alice adormeceu. Mas quando a deixei na cama. Começou a chorar outra vez.

Dei-lhe sopa. Quentinha. Embalei-a.

Dormiu.

 

Fui tomar banho.

Tomei, finalmente o pequeno almoço. Às 11h da manhã.

 

Quando olhei. Vejo o cão. Rabo a abanicar. Feliz da vida. Com qualquer coisa dentro da boca.

Nem quero acreditar. Quando olho e vejo que é uma cápsula de detergente da loiça.

Tinha a máquina pronta. E já tinha posto a cápsula. Ele conseguiu tirá-la de lá.

Ainda esta semana falei disto.

As minha preocupações estavam certas. Um dos meus filhos andava a dar forte e feio no detergente.

Fui com muito cuidado. Em câmara lenta ter com ele. Para o agarrar.

Movimentos bruscos, assustam-no.

Quando estava quase, quase, quase....ele fugiu. Ó céus....

Quando fugiu. Bruscamente. E com a humidade da boca. E o calor.

Com mil Slimanis. A cápsula rompeu.

Saltei para cima dele. E com as minhas pernas a fazer de alicate.

Segurei o cão com as pernas...até porque estou cheia de força nas pernas.

Abri-lhe a boca.

Tirei-lhe a cápsula.

Obriguei-o a ir até à casa de banho. Arrastei-o...

Escancarei-lhe a boca.

Lavei-lhe a boca. Língua. Dentes.

Para lhe tirar o detergente.

A fuga. Tinha sido pequena.

O dano foi enorme.

Devo ter tocado num ponto sensível da garganta do cão. Logo a seguir fui apanhada numa avalanche de vómito.

A vida é uma festa, às vezes é mal cheirosa e é sempre imprevisível.

Vasco no seu melhor. Estava aterrorizado. E a tremer.

 

A Alice acordou.

Lá me limpei como consegui. Troquei de camisola. E fui ter com ela.

Dei-lhe o almoço.

Vasco. Inconsolável no sofá da sala..

Bonito. Um cão sujo...no sofá da sala.

Vasco. A tremer no sofá da sala.

 

Liguei ao veterinário a contar. Sossegou-me. Se vomitou e tudo. Não tinha nada de detergente. Era fita.

- Fita?? O Vasco....estranho!

Os meus pais ligaram.

Tinha-me esquecido de avisar. Que os planos tinham mudado.

O meu pai disse para não me preocupar. Que passava por aqui e levava a Alice. Antes da sesta da tarde.

 

Apareceu o meu pai.

A Alice saiu a chorar.

Eu fiquei de coração partido.

Não era nada disto que tinha idealizado.

Dediquei-me ao cão. Tinha de conseguir consertar o cão estragado.

Fiz festinhas.

Dei beijinhos.

Ficou ao meu colo.

Dei comida.

E fiz festinhas.

Limpei-o.

Falei-lhe ao ouvido.

Disse-lhe que gostava muito dele.

Disse-lhe que era o melhor cão do mundo.

E que a minha vida sem ele não tinha graça.

Dei biscoitos dos dentes.

Fiz festinhas.

Convidei-o a ir dar um passeio.

Ele foi. Muito devagarinho. Parecia um cão velhinho. E chorava. Muito.

Fiz festinhas.

Fez xixi. E cocó.

Voltámos para casa. A uma velocidade. 1 m por minuto.

Dei-lhe banho. Sequei-o.

Voltou a deitar-se no sofá da sala. Mais calmo. E já sem tremer. Mas ainda combalido.

Descongelei. No micro-ondas. O meu principal trunfo.

O frango assado.

Chamei-o. Comeu alarvemente. E com satisfação.

Fiz festinhas.

Dei-lhe beijinhos.

Eram 20h quando o deixei em casa dos meus pais.

A Alice já estava a dormir.

E lembrei-me agora que ainda não almocei....

 

 

24.01.18

desrespeito à autoridade..

Joana Marques

Hoje de manhã o cão armou-se em fino. E pela primeira vez desde que a Alice cá está quis ficar em casa.

Antecipei-me e pus #rumário em cima do móvel. Onde o primo morreu...

Não se assustem que #rumário não vai morrer. Coloquei um lembrete no telemóvel a dizer...

- Não te esqueças do peixe, palerma.

Tem resultado. #rumário, não se manifesta muito, mas parece feliz.

 

Saí eu com a Alice, o Vasco ficou.

Regressei a casa. Comecei a trabalhar...

E o Vasco mudou-se da sala para o escritório e ali esteve. Eu a trabalhar. Ele a dormir.

Sim, senhor. Vida de cão. A escrava que trabalhe.

 

A escrava almoçou em casa.

A escrava foi passear o cão.

A escrava voltou a trabalhar.

 

Às 16h decidi ir buscar a Alice.

Peguei nas chaves do carro. E tive companhia. Estava doido de alegria. Passear de carro. Olé!

Entrou para o carro. Depois entrei eu.

E aí vamos nós.

Quase a chegar a casa dos meus pais, estava uma rua cortada num dos sentidos. Pareceu-me estarem a arranjar um candeeiro.

Ainda estive parada, em fila.

Um polícia coordenava o trânsito.

Fez um sinal para os carros que estavam na minha faixa avançarem.

E nós, devagar, devagarinho lá fomos.

O Vasco, doido de alegria.

 

Passei pelo polícia. Estava virado de costas para falar com um dos senhores das obras.

Carro parado. Janela aberta. Vasco com a cabeça de fora.

O cão enche os pulmões de ar.

Encosta o focinho à cabeça do polícia.

E ladra mais alto que os metallica em concerto.

O polícia com o susto atirou um salto e foi contra uma barreira.

 

Ainda pensei fechar as janelas. Não abrir as portas. E fugir, fugir, fugir...

Podia ser que ninguém me encontrasse....no Canadá.

Mas, não. Saí do carro. À espera de um raspanete e de uma multa por excesso de barulho. É que aquele ladrar, de certeza, ultrapassou os níveis legais de decibéis.

Tive sorte.

O polícia não levou a mal.

E o Vasco ainda foi contemplado com uma quantidade de festas...

...há pessoas simpáticas

 

 

20.01.18

o juramento...

Joana Marques

Quando tinha 8 anos.

Na escola. Tinha dois grandes amigos.

A Cátia e o Miguel.

Andávamos sempre juntos. Éramos unha com carne.

O pai do Miguel trabalhava numa empresa espanhola e passava cada vez mais tempo em Espanha.

Um sábado de manhã fui às compras com a minha mãe e encontrámos a mãe do Miguel.

Em conversa com a minha mãe disse-lhe que era provável daí a uns tempos irem todos viver para Espanha porque o marido passava a maior parte do tempo lá.

Não disse nada ao Miguel. Mas ele sabia.

 

Dividíamos os trabalhos de casa. E antes da escola começar encontrava-me com eles e trocávamos os tpc's.

Se tínhamos 3 contas para fazer, cada um fazia uma e depois era só copiar.

Uma tática infalível. Só usada pelos melhores amigos, os que podemos confiar.

Sabemos que no quinto aperto não contam nada a ninguém quanto mais no primeiro.

E nós sabíamos que em caso de desconfiança, os adultos não tinham tempo de nos apertar até à morte...

 

Entre a cópia, a conta de multiplicar e a de dividir o Miguel disse-nos que ia morar para Espanha.

Chorámos os três.

E nesse dia chorámos outra vez. Porque não fizemos os trabalhos de casa como deve ser e a professora contou aos nossos pais.

Foi um dia dos diabos.

 

No dia seguinte o Miguel disse-nos que tínhamos de jurar que íamos ficar sempre amigos.

-Sim, juramos. Respondi eu e a Cátia.

- Não é assim que se jura. Disse o Miguel.

- Como é que se jura?

 

O Miguel explicou-nos. Tínhamos de cuspir na mão. E com um aperto de mão, como faziam os homens, selar o juramento.

Numa fase em que tudo me dava volta ao estômago, incluindo os beijos na boca.

Tive de me abstrair bastante para fazer tal coisa.

- Tens a certeza que é assim?

- Tenho. Vi num filme com o meu irmão.

O Miguel tinha um irmão fixe. O meu só servia para me roubar o tulicreme do pão.

 

O juramento funcionou. Somos amigos até hoje.

A Cátia nunca saiu da minha beira.

O Miguel foi para Espanha. E depois para Inglaterra. Mas acabava sempre por vê-lo nas férias de Natal. Vivíamos próximo.

Perdi contacto com o Miguel quando comecei a trabalhar e saí de casa. E os meus pais saíram de Campo de Ourique e mudaram de telefone fixo.

Só que a vida dá voltas e voltas. E quando eu pensava que nunca mais o ia ver.

No Natal de 2012 em pleno Colombo. E com milhares de pessoas lá dentro. Alguém me bate no ombro. Era o Miguel.

Jantámos, nesse dia. E ele contou-me que estava a viver na Nova Zelândia. E que ia ficar por um mês em Portugal, depois voltaria.

Convidei-o para jantar em minha casa. Convidei a Cátia, claro! E uma outra amiga minha, a Raquel.

Nesse dia o Miguel apaixonou-se pela Raquel e a Raquel pelo Miguel.

Nunca mais se largaram.

Ele voltou para a Nova Zelândia. Mas regressou três meses depois. Casaram. E são felizes.

Actualmente, vivem na Nova Zelândia, e têm dois filhos...Sportinguistas.

 

 

Hoje de manhã. Acordei.

E fiz o que tenho feito neste último mês.

Vou espreitar o berço da Alice.

Gosto de olhar para ela.

 

Olho para ela.

Sinto-me uma sortuda.

E agradecida.

Alguém que eu não conheço.  Achou que merecia ser abençoada desta maneira.

Não mudava nada nela.

Porque é perfeita.

 

Desperto.

Os meus pensamentos são interrompidos por um bafo quente e húmido.

Enquanto eu olhava para ela por cima do berço.

O Vasco olhava para ela pelas grades da cama.

Os dois em silêncio a zelar pelo sono dela.

 

Acordou.

Viu-nos.

Riu-se tanto que até os olhos se fecharam outra vez.

Deu-me os braços para a tirar da cama.

 

Peguei nela.

E sentei-me num cadeirão.

Com ela ao colo.

O Vasco pôs a cabeça no meu colo em cima dos pés da Alice.

Com o braço esquerdo segurei a Alice.

Com o direito fiz festas ao cão.

 

Os 3.

Geneticamente diferentes.

Unidos pelo amor. Para sempre.

Um juramento selado....

 .....por aquele ribeiro de cuspo...saido diretamente da boca do cão.

 

 

Joana Marques

foto do autor

Sigam-me

contador de acesso grátis

Links

Grupo no Facebook de Partilha handmade! 💝

As histórias do cão! 🐶

Tricot 🌺

Crochet 🌻

Receitas 🍳🥦🥧

Planear ⌚📅 📊

Comentários recentes

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D