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Quiosque da Joana

20.08.18

uma dor na alma...

Joana Marques

Devia ter uns 9 ou 10 anos quando os meus pais conversaram comigo.

Os bebés. Toda a verdade.

Fiquei um bocado atordoada, confesso.

Não achava que os bebés viessem de Paris no bico de uma cegonha mas exigia um pouco mais de pompa e circunstância.

Todo o processo me apareceu meio abrutalhado. 

E decidi logo ali, nunca, nunca na vida me sujeitar a tamanha atrocidade.

A maioria dos meus amigos era rapaz, gostava de jogar futebol, subir às árvores, correr, jogar ao berlinde. 

Alto e paira o baile. A minha diversão com rapazes ficava por aí. E não se falava mais nisso. Nunca mais.

Todas as informações iriam ficar por ali.

Nunca mais iria falar delas. E iam comigo para a cova

Se bem que com 10 anos, era um assunto.......tal como os bebés, só acontece nas histórias....

 

Aproveitaram também para me dizer como o corpo feminino funciona e que eu daí a uns anos, não sabiam bem quando, seria visitada por algo completamente incompreensível por mim naquela altura.

A minha irmã já tinha 19 anos.

Confirmou a história.

Eu fiquei a achar que era algo que tinha acontecido à minha mãe e à minha irmã mas eu era especial e não teria tal coisa....

 

12 anos de Joana.

Um dia. Aconteceu o acontecido.

Relembrei a conversa. Percebi o que estava a acontecer.

 

Chamei a minha mãe. Ajudou-me.

Falei com a minha irmã, também me ajudou.

No dia seguinte tinha aulas e contei à minha professora de Português.

A minha professora riu-se. E disse-me:

- Joana, estás a crescer! Cuidadinho com os rapazes.

Relembrei a tal conversa que os meus pais tinham tido comigo. E pensei...mal esta sabe que nunca em toda a minha vida, irei deixar que tal aconteça...

Contei às minhas amigas e aos meus amigos.

Eu era assim. Uma desbocada.

Os rapazes acharam que eu estava a falar de unicórnios. Alguns riram-se e ficaram meios parvos.

As minha amigas também.

Algumas nunca tinham ouvido falar.

Outras já tinham sido contempladas mas não falavam sobre o assunto.

Outras ainda não tinham tido tal experiência e estavam em negação como eu tinha estado e outras já tinham e partilhavam informação.

 

Muitas queixas.

Dói a cabeça.

Dói a barriga.

Nunca sabes quando aparece. Às vezes estás no cinema com um grupo de amigos e surpresa!

Ficamos com vontade de comer este mundo e o outro.

Uns dias antes choramos rios de lágrimas.

Não podemos ir à praia.

Não podemos tomar banho. Em caso algum não deves nunca lavar a cabeça.

Não podemos cozinhar.

Dura mais de uma semana e quando regressas já a vida passou e tu não a apanhaste.

 

 

Cheguei a casa e quis pôr os pontos nos i's?

Sentia-me enganada. Já não bastava andar a esguichar sangue, para o qual tinha sido preparada e para o qual já tinha interiorizado.

Era o preço a pagar pelo sistema reprodutor que nunca iria usar.

Cheguei a casa e disparei contra tudo e contra todos...

- Afinal? Querem-me contar a verdade toda? 

O meu pai, a minha irmã e a minha mãe falaram comigo e lá me acalmaram...

- Os sintomas dependem de mulher para mulher. Podes ter tudo como podes não ter nada. 

- Definitivamente, podes tomar banho!  E se faz favor, lava a cabeça!

- Podes ter uma vida perfeitamente normal sendo que tu e só tu podes estabelecer essas limitações.

- Com o tempo vais conhecer o teu corpo melhor e vais te organizar tendo em conta o que sabes.

Fiquei mais calma mas com a pulga atrás da orelha.

Quando a família se unia para me convencer de alguma coisa. Era sinal de que o assunto era grave.

 

Nos dois meses seguintes nada apareceu.

Mas depois disso. Um relógio suíço.

Com passar do tempo e com a ajuda da minha mãe e da minha irmã percebi que tinha um ciclo de 28 dias certos.

Aparecia 99% das vezes à segunda feira. Ás vezes ao domingo outras à terça.

Durava entre 4 a 5 dias.

Não sentia nada de nada. Nem uma dor. Nem uma cólica. Nem inchaços.  Nada de TPM. Nem um único sintoma. 

Aparecia e pronto...

Passou a fazer parte da minha rotina. 

 

Andava no oitavo ano e comecei a ver as minhas colegas muitas vezes no banco. Apenas a assistirem às aulas de Educação Física...

Três ou quatro por aula.

No ano anterior não me lembrava de ter visto tal.

Perguntei a uma delas...

- Este ano o professor é homem se lhe disseres que estás com o período e ele dispensa-te da aula. 

- E no ano passado?

- No ano passado era uma professora, não caía nisso. 

 

Fiquei a pensar nisso...

- Numa aula em que se jogue andebol, peço para ficar de fora...

Nunca em toda a minha vida tinha pensado em tal, até porque se eu pensasse, os meus pais leitores de pensamentos espancavam-me antes de pôr a ideia em prática....

 

Se bem pensei melhor o fiz.

No início de uma aula disse-lhe:

- ...Não posso fazer a aula hoje...

- Então, porquê?

Quase morri...mentir nunca foi a minha praia...

- Estou meia adoentada....

Disse eu com ar de sofrimento. Por mentir e não por estar meio adoentada.

Se eu dissesse ao professor..

- Não posso fazer aula porque levei uma paulada de um gremlin..

Ele tinha acreditado mais, mas...

- Fico feliz por estares só meia adoentada. Já viste se estivesses completamente adoentada...assiste ao jogo, só....

Nem queria acreditar. Tinha conseguido.

 

Nem queria acreditar. A aula demorou horrores a passar.

Já tinha passado pelo menos três semanas e eu ali no banco a ver passar a vida.

Decidi logo e ali nunca mais fazer tal coisa na vida.

 

A aula acabou, finalmente.

Fui almoçar.

Tive aulas à tarde.

Cheguei a casa.

A minha mãe abriu-me a porta e só de olhar para mim achei que ela sabia de tudo.

- Vai lanchar e depois vai fazer os trabalhos de casa.

Lanchei. E nem reivindiquei tempo de televisão. Fui fazer os trabalho de casa.

Estava tão quieta que a minha mãe foi ao meu quarto ver se eu estava bem.

 

Ao jantar.

Os meus pais, eu e o meu irmão.

A minha irmã já tinha casado e tinha ido jantar lá a casa com o marido.

A meio do jantar, diz-me o meu pai.

- Então Joana, tiveste um bom dia?

- Sim.

- Se sim, porque é que não fizeste a aula de Educação Física?

O bacalhau com natas quase saiu pelo meu nariz...

- Ah! P-o-r-q-u-e   t-i-n-h-a   u-m-a   d-o-r.

- Uma dor?? Onde é que tinhas a dor??

- T-i-n-h-a   u-m-a   d-o-r    n-a   a-l-m-a.

Risota geral.

Até hoje a minha família chateia-me com isso.

Se eu fico de fazer alguma coisa e não faço...

- Pois, já sei...tiveste uma dor na alma....

 

 

Estivemos de férias.

Alice. Guadalupe. Pedro. Vasco. E Joana.

Estivemos com os meus sogros. Com os meus pais. Irmãos. Cunhados. Sobrinhos.

Tinha todo o tempo do mundo para ver a Alice crescer.

Está tão grande. Já diz tanta coisa. E está tão engraçada.

Tinha todo o tempo do mundo para estar com o Pedro.

Conversar. Passear. Namorar.

As férias acabaram.

 

Hoje é segunda feira.

O Pedro foi trabalhar.

A Alice foi para casa dos meus pais.

De todos sou a que tem mais sorte a Guadalupe está sempre comigo e o Vasco também.

Mesmo assim...

....sabem o que vos digo...

 

....tenho uma dor na A-L-M-A. Que nem vos digo nada....

 

 

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