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Quiosque da Joana

29.03.18

Vasco, dá cabo dele...

Joana Marques

Ontem não foi um dia bom.

Pelo acontecimento. Que mudou o rumo do dia. Mas sobretudo por ter sequer considerado que não gostava de ser eu.

Como é que é possível?

Ter tal pensamento.

Tenho uma autoestima que ultrapassa o Everest...

Dou-me bem comigo. Gosto muito de mim.

E sou feliz comigo. Tenho sorte. De ser Joana.

 

Ontem pensei no assunto.

Olhei para o telemóvel vezes sem conta. Sempre a ver se dona Cinderela me tinha enviado uma mensagem.

Achei que o telemóvel estava estragado.

Enviei uma mensagem à Ana.

- Envia-me um sms, estou desconfiada que o meu telemóvel não recebe mensagens.

Claro que o meu telemóvel recebia mensagens. Detetei, apenas e só um pequenino problema.

Não recebia mensagens...de quem não as tinha enviado.

Uma pessoa hipoteca um rim para poder comprar um telemóvel de jeito e ele, nem imaginação tem, para nos sossegar.

 

Ainda ponderei enviar-lhe eu, uma mensagem.

Mas, troquei mensagens com o meu consultor para assuntos relacionados com homens, que me disse para esperar pelo dia seguinte. E enviar a mensagem a horas decentes. 9 horas da manhã. Segundo ele.

 

Estive a trabalhar até tarde. Tem sido uma terapia.

Deitei-me.

Não dormi muito bem.

A ideia de lhe enviar uma mensagem. Não me agradava muito.

Porque não sabia o que escrever. Tudo soava ridículo. Ou desesperado. Ou pateta.

 

Fez-se dia.

Acordou a Alice.

Depois daquelas rotinas todas matinais. Deixei-a em casa dos meus pais.

Comecei a tratar de tudo. Logo à noite vamos para o Alentejo. E só regressamos segunda.

Fui às compras.

Fui beber um café ao Guincho.

Sempre com o Pedro. Na minha cabeça.

Deixei de olhar para o telemóvel de 5 em 5 minutos. Passei a olhar de 6 em 6. Uma evolução...de 60 segundos.

E resolvi ser Joana. Resolvi dar cabo dele.

Às quintas é dia de consultas.

Almoça entre as 12h e as 14h.

Hoje ia ter uma surpresa.

Quando sair para almoçar. Estou lá eu.

 

Cheguei a casa.

Tratei das compras. E comecei a tratar de mim.

Se das outras vezes tinha visto a Joana recatada. Excepto, ontem que me viu um bocado despida.

Hoje ia conhecer. A outra.

Experimentei uns sapatos de salto.

Nunca mais tinha usado saltos desde que parti a perna.

É como andar de bicicleta. Nunca se perde o jeito.

Um vestido. Um pouco abaixo do joelho. Que me fica mesmo bem!

Fiz umas ondas no cabelo.

Usei uma maquilhagem ligeira. Tive sorte. Dormi pouco mas acordei com boa cara.

Entrei no carro.

Só saí em Lisboa. Perto do hospital.

Fiquei de plantão. Nas imediações do sitio onde dá consulta.

12h20.

Sai o homem. Em passo apressado.

Bata branca.

- Pedro. Pedro.

Nada.

- Pedro. Pedro.

Nada.

 

É, Pedro, não é?

É Pedro, é. Pensei eu para os meus botões.

- Pedrooooooooo.

E o homem virou-se.

Ainda pensei.

O homem vai fugir com as pernas que Deus lhe deu.

E eu estou de saltos.

Mas não faz mal mal. Ele foge e eu vou atrás dele...

 

Ficou muito surpreendido.

Riu-se.

- O que é que estás a fazer aqui?

Perguntei-lhe se tinha uns minutos, precisava de falar com ele e não era conversa para se ter ao telefone.

Respondeu-me.

- Estás diferente, hoje.

- Sim, Pedro. Estou vestida.

Riu-se.

E disse-me.

- Vou almoçar agora. Já almoçaste? Tem é de ser rápido. Amanhã é feriado, isto hoje está uma loucura.

- Almoças e eu despacho o que tenho para dizer em menos de nada.

De repente muda de direção.

180º.

Pega-me na mão e diz.

- Estava para ir ao bar mas acho que tenho uma ideia melhor.

Deixou-me num banco de jardim e disse-me que já vinha.

Vi-o sair.

Esperei.

1º minuto.

- Onde é que o homem terá ido.

 

 

2º minuto.

- Vou enviar-lhe uma mensagem a perguntar onde é que foi.

Nem penses! Vai ao facebook e deixa-te de ideias tristes.

 

3º minuto.

- Este homem....não acho normal.

Não te mexas! Vai ao instagram. E deixa-te de coisas.

 

4º minuto.

- E se eu lhe enviasse uma mensagem.

NÃO! Dá uma vista de olhos no mail.

 

5º minuto.

-

Responde aos mail's. Sem lamúrias...

 

7º minuto.

- Oh! Não. O homem fugiu outra vez. Não acredito nisto! O homem fugiu outra vez.

Vai dar uma olhadela no blog. É a vida...

 

8º minuto.

- Ele fugiu. Eu sou tão inofensiva e tão querida. E no espaço de 24 horas. Foge duas vezes.

 

9º minuto.

- Com mil slimanis. Isto é castigo. Por ter humilhado o Pintas publicamente.

 

10º minuto.

- Cá se fazem, cá se pagam. É mesmo verdade. A lei do retorno...tantos anos a desejar impotência aos árbitros que roubam o Sporting deu nisto. O homem fugiu.

 

11º minuto.

O homem não fugiu.

 

Lá vinha ele. Sorridente. Bata branca. Deu-me uma caixa para a mão.

- Prova. São os melhores cachorros quentes de Lisboa.

Não me contive. Comecei-me a rir às gargalhadas.

- Não fujas outra vez. Dá-me só um momento....

- A sério prova. Já percebi que comes de forma saudável. O teu é de soja.

Quanto mais o homem falava mais eu me ria.

 

Respirei fundo. E comecei. O meu discurso.

- Mal nos conhecemos mas acho que as situações devem ser esclarecidas desde o momento zero. Tens de saber algumas coisas sobre mim. Detesto perder tempo e fazer perder o tempo dos outros.

Não te conheço bem. Nem sei que tipo de homem és. Tens alguém?

- Não.

O homem riu-se.

- Não te rias. Isto é muito sério. Então, és do tipo Capitão Iglo?

- ?

- É um homem que tem várias amigas congeladas. E conforme lhe dá jeito vai tirando, usando e volta a congelar para uso futuro.

- Não sou o Capitão Iglo. Mas como douradinhos várias vezes por semana.

- Blhec! Não te querendo encostar à parede, tens duas hipóteses. Ou entras na minha vida. Ou sais. Só não podes ficar assim. Terça-feira maravilhoso. Quarta foges e desapareces do mapa.

- Eu não sei o que me aconteceu ontem...

- Só um bocadinho. Deixa-me concluir. Não percas tempo, vai comendo.

 

E a Margaret Thatcher que há em mim, disse: olá!

- Percebo perfeitamente que optes por não entrar.

- Eu quero..mas...

- Shiuuuuu! Deixa-me acabar.

Eu de dedo espetado. No nariz dele. Iniciei um longo discurso.

- Como te estava a dizer, se não quiseres eu percebo perfeitamente e até acho que fazes bem. Porque sei que não vai ser fácil. Por várias razões. A principal, tenho uma filha. E a minha filha vai estar sempre em primeiro lugar. Não a fui buscar para lhe dar uma vida igual ou pior do que tinha. Não controlo tudo, mas da minha parte vou fazer tudo por ela. Só deixo entrar em minha casa e na vida dela quem eu achar que está à altura dela. Uma coisa é certa não lhe vou apresentar um namorado novo por mês. Nem por ano, sequer. A educação passa muito pelo exemplo. E não é essa a mensagem que lhe quero passar.

 

Eu a falar e a fingir que comia o cachorro quente. Com os dedos a tirar bocadinhos de pão e a deitar migalhas ao chão, discretamente. A certa altura estava rodeada de pombos.

- Presumo que a fila, para entrar na tua vida, seja grande. E a concorrência seja feroz. Até os pássaros gostam de ti...

 

- Grande ou pequena. Não interessa. É contigo que estou a falar. Não é com mais ninguém...

Aliás, deves saber que pouco me interessa isso. Deves ter ideia de quantas vezes o José me convidou para sair. E também deves ter ideia de quantas vezes aceitei. Zero. Sou muito pouco influenciável. Sei muito bem o que quero. Sei muito bem o que não quero. Até posso gostar muito da pessoa mas se a minha intuição me disser para não avançar não avanço e pronto. Só tive dois namorados. O primeiro foi uma relação de adolescente mas o segundo achei mesmo que ia durar. E quase morri quando percebi que não. Não me interpretes mal, Pedro. Se ficares, não quer dizer que te vá pedir em casamento ao fim do primeiro ano, ou qualquer coisa do género. Podemos perceber ao fim de um tempo que nos enganámos...acontece muitas vezes. Estou a referir-me apenas à disponibilidade para....não sei se me estou a fazer entender. Só não quero que isto entre naquela celebre frase: "não és tu sou eu"....e uma das partes anda a enganar a outra.... É tão frequente...hoje em dia.

- Mas não era nada....

- Shiuuu! Vou terminar já. Vais pensar no que queres. E se achares que a tua vida é melhor sem mim, acredita que te desejo toda a felicidade do mundo. Vais pensar. Bem pensado. Tens tempo. De arrumar ideias. E todas as pontas soltas. Hoje à noite vou para o Alentejo. Para a semana vou para Dublin. Não nos vamos ver. Quando eu chegar de Dublin. Se ainda estiveres pela minha vida...convida-me para almoçar. Se não, não digas nada. Estás a perceber? Não me faças perder tempo. Só isso....E já que falaste disso, também tenho a certeza que terás uma lista de fanzocas que aceitam qualquer migalha...nada contra. Eu não aceito. Não é disso que ando à procura...

Percebeste tudo?

 

Fez que sim com a cabeça.

- Não são horas de voltares? Para as consultas?

- Mais uns 5 minutos. Vou te levar ao carro.

Despediu-se de mim. Com um abraço. E um beijo. E outro abraço.

O coração dele a bater muito depressa.

 

Pára tudo.

A Joana voltou outra vez....

- Pedro, vou te deixar à porta do consultório. Vais entrar, arregaçar as mangas...e começar a dar consultas...

Suspirou.

- Tenho uma longa tarde pela frente. Devia sair às 16h mas devo ter trabalho até às 20h.

- Pois, então convém começares o quanto antes. Resmas de pessoas com rins presos por um fio....à tua espera.

E lá voltei a fazer o caminho todo com ele. De mão dada.

- Então e a pessoa que operaste ontem, está viva?

- Claro que está. Já o visitei hoje.

- Fiquei muito apreensiva. Naquele estado achei que tinhas deixado o pobre coitado com um rim pendurado na orelha...

- Segunda-feira já deve ter alta.

Parámos à porta do consultório.

- Para onde é que vais, agora?

- Vou para casa. Organizar tudo. Depois vou buscar a Alice. E mais para o fim do dia vamos para o Alentejo.

- Tens mesmo de ir? Tens a certeza que não queres ficar aqui...comigo?

- A dar consultas? Muito tentador, esse convite. Diria irrecusável....mas vou ter de dizer que não. Para bem da população em geral, rins e outras miudezas... em particular..

Outro abraço.

 

Passou por nós, um colega.

- Olá, Pedro. Quem é?

- Olá, Rui. É a Joana. A minha namorada.

 

Será possível que não reteve nada do que eu disse?

Será que andei a pregar aos passarinhos?

Será possível que tenha o poder de concentração de um rim?

 

Apeteceu-me bater-lhe. Deserda-lo. Atira-lo aos pombos. E aos peixinhos do mar e apresentar-lhe o cão.

- Vasco, dá cabo dele!

 

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